Mecânico é o único brasileiro de que se tem notícia na Líbia

André Luís Claro Poças, funcionário da Petroair, está isolado na cidade de Sirte e só consegue manter contato com o Brasil através de ligações feitas pela esposa

Lourival Sant'Anna, enviado especial,

27 de fevereiro de 2011 | 20h36

O mecânico de aviões André Luís Claro Poças passa 28 dias trabalhando na Líbia e outros 28 dias em férias no Brasil, para onde vai com passagens compradas pela companhia em que trabalha, a Petroair, estatal líbia de transporte aéreo para o setor do petróleo. Poças voltou de suas últimas férias no dia 13 - dois dias antes de começarem os protestos que levaram a um levante sem precedentes contra o ditador Muamar Kadafi. Hoje, Poças é o único brasileiro de que a embaixada tem notícia ainda na Líbia - com exceção dos diplomatas e dos jornalistas que vieram cobrir o conflito.

 

"Eu não imaginava que isso pudesse acontecer", recorda Poças, que não foi o único surpreendido pelas proporções que o confronto assumiu. Ele conta que, alguns dias antes de voltar do Brasil, recebeu email de um colega da refinaria onde trabalha, em Sirte, cidade encrustrada entre Benghazi, o principal reduto da oposição, e Trípoli, a capital ainda dominada por Kadafi. Teoricamente um alvo militar, a refinaria está isolada. A pista de pouso usada pelos aviões que transportam seus funcionários foi interditada por obstáculos - Poças não sabe se pelo governo ou pela oposição.

 

As estradas não oferecem segurança nem para o percurso de 600 km a oeste, onde fica Trípoli, nem para os 250 km rumo a leste, onde se encontra Benghazi. Forças do governo e dos rebeldes disputam o controle sobre esses acessos. A saída pelo mar também está fechada.

 

Para aumentar o isolamento, Poças está sem internet e não consegue fazer ligações de seu celular. É a sua mulher que liga todos os dias, de São José dos Campos, onde mora com seus dois filhos, um de 20 outro de 18 anos. Geralmente ela só consegue completar a ligação de madrugada, por causa das linhas congestionadas. Técnicos em telecomunicações disseram ao Estado que o governo restringiu em 60% a capacidade das linhas telefônicas.

 

O brasileiro conta que não sai de casa há oito dias, e que a situação ao redor da refinaria e na cidade mais próxima, Jedabia, a 70 km de distância, é tranquila. O mecânico, de 44 anos, mora na Líbia desde 2007, quando o país comprou o primeiro avião da Embraer. Em 2010, mais dois jatos do mesmo modelo, RJ-170, foram adquiridos. Poças conta que, desde o início dos confrontos, os três aviões foram levados para o aeroporto militar de Mitiga.

 

Empresas brasileiras com apoio do Itamaraty retiraram da Líbia um total de 3.500 pessoas, entre brasileiros e cidadãos de muitos outros países. O último grupo saiu no sábado do porto de Benghazi num navio com 148 pessoas, fretado pela construtora Queiroz Galvão, em direção à Grécia. O outro brasileiro que ainda restava, Fernando Silva Farias, funcionário da empresa franco-alemã Schlumberger, embarcou também no sábado para o Brasil.

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