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Mulher de rival de Ahmadinejad atrai voto feminino

Reitora destituída por Ahmadinejad é estrela da campanha do reformista Mir Hussein Mousavi no Irã

Lourival Sant`Anna, de O Estado de S. Paulo

10 de junho de 2009 | 08h28

O Estádio Heidal Nia foi dividido ao meio. De um lado, homens; de outro, mulheres, que no Irã não podem frequentar o mesmo ambiente em lugares públicos. Cerca de 10 mil pessoas encheram o campo de futebol, as arquibancadas e até um viaduto ao lado do estádio. O lado mais entusiasmado era o das mulheres, um mar de roupas pretas com véus, fitas e outros adereços verdes - a cor da campanha de Mir Hussein Mousavi, o ex-premiê moderado, apontado como o principal adversário do presidente conservador Mahmoud Ahmadinejad na eleição presidencial de sexta-feira. Não há pesquisas confiáveis que indiquem as reais chances de eleição dos candidatos.

A estrela do comício - do qual Mousavi não participou - foi a mulher dele, Zaghra Rahnavard, professora de ciência política. A participação da mulher na campanha, inédita no Irã, parece simbolizar a promessa de Mousavi, de garantir direitos iguais para ambos os sexos.

"Mousavi Rahnavard, tassavi zan va nard (igualdade mulher e homem)", entoavam as mulheres - e muitos homens, do outro lado do cordão humano que os dividia. "Olá, vocês que buscam respeito internacional", saudou Zaghra. "Vocês que querem boas relações com todo o mundo, não amizades impensadas", continuou, aparentemente referindo-se aos laços de Ahmadinejad com figuras como o venezuelano Hugo Chávez.

"Olá, vocês que buscam pessoas inteligentes, não magos e bruxas, e não aceitam que a segunda pessoa mais importante do país minta na TV." A primeira é o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que, embora conservador, aparece nos cartazes da campanha de Mousavi, num esforço de legitimação da candidatura do moderado perante os descontentes com Ahmadinejad, por sua retórica incendiária e seu estilo populista.

"Somos contra a pobreza, a fome e a desigualdade", sublinhou Zaghra. "Queremos reativar a economia." Eleito em 2005 com a promessa de "pôr na mesa a riqueza do petróleo", Ahmadinejad distribuiu nas últimas semanas dinheiro para 5,5 milhões de pobres, além de oferecer financiamento para moradias e aumentos de salários e aposentadorias para os servidores públicos.

Zaghra aproveitou para lembrar a acusação que Ahmadinejad fez contra ela no debate com Mousavi na semana passada. O presidente, cujo governo a destituiu do cargo de reitora da Universidade Al-Zahar (só de mulheres), afirmou que ela havia usado certificados falsos.

"Ele insultou todas as mulheres", disse a professora. "Durughgu" (mentiroso), repetia a multidão. Oradores que vieram antes de Zaghra acusaram Ahmadinejad de usar a máquina do governo em sua campanha e disseram que o Ministério do Interior não autorizou Mousavi a fazer comícios em lugares maiores, como o Estádio Azadi, com capacidade para 100 mil pessoas, e a Grande Mesquita Mussala, cenário de comício do presidente na segunda-feira.

"Apoio Mousavi porque sou favorável à liberdade de imprensa, não quero caminhar nas ruas com medo dos basidjis (a polícia que vigia o cumprimento do código de costumes)", disse a contadora Setare Khodayari, de 25 anos. "Além disso, meus pais dizem que a melhor época no Irã foi durante o governo de Mousavi (1981-89)."

"Estou aqui porque não quero mais ouvir mentiras de que o povo não passa fome, de que toda a imprensa é livre, de que o Holocausto não existiu", explicou o escritor Mani Parsa, de 34 anos. "Mousavi quer reduzir o poder de Khamenei, para que tenhamos liberdade para fazer o que quisermos", disse o professor de inglês Berzad, de 44 anos. "O mais importante é que Mousavi é contra um homem ter mais de uma mulher", completou sua namorada, Susanne, uma funcionária pública de 37 anos. "Se quiser ter outra mulher, vai ter de se divorciar." Ahmadinejad defende a prática islâmica de o homem poder ter até quatro mulheres.

 

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