Negociação nuclear esbarra em recusa do Irã de aceitar França

Atrasos e falta de consenso estagnaram diálogo de potências com iranianos sobre exportação de urânio

Efe,

20 de outubro de 2009 | 16h35

As negociações nucleares para discutir o enriquecimento no exterior de parte das reservas de urânio do Irã ficaram estagnadas nesta terça-feira, 20, devido à insistência de Teerã de que a França não era benvinda às conversas.

 

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Vários atrasos e a indecisão das delegações marcaram um dia no qual houve vários contatos bilaterais, mas sem que Irã, EUA, Rússia e França conseguissem se sentar para conversar em uma mesma mesa. No entanto, "as consultas continuam", segundo o embaixador iraniano na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Ali Asghar Soltaniyeh, ao sair da sala de conversas.

 

A reunião é considerada um termômetro sobre a predisposição de Teerã para alcançar compromissos, após seu encontro com o grupo formado pelos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU - EUA, Reino Unido, França, Rússia e China - mais a Alemanha, em 1º de outubro em Genebra.

 

Os atrasos começaram a acontecer pela manhã, depois que o ministro de Exteriores iraniano, Manouchehr Mottaki, disse em Teerã que "não há necessidade de que a França esteja presente" nas negociações.

 

Fontes diplomáticas da delegação iraniana reiteraram que não aceitavam a França como parceiro nas conversas nucleares, porque, no passado, Paris não tinha se comportado de forma "confiável" e não tinha mantido seus "compromissos" de abastecimento nuclear. A delegação francesa não estava disposta a se retirar das conversas, o que poderia ter sido interpretado como um duro golpe para a diplomacia francesa, segundo fontes ligadas à reunião.

 

A disputa ficou mais complicada com o passar das horas e o diretor-geral da AIEA, Mohamed ElBaradei, tomou as rédeas no assunto para negociar uma solução de compromisso, segundo as mesmas fontes.

 

Enquanto isso, outras fontes ocidentais consultadas pela Agência Efe afirmaram que os iranianos tinham forçado uma situação para dificultar as negociações com o único propósito de ganhar tempo. Este contratempo diminui as esperanças abertas em Genebra de que as conversas entre o Irã e as grandes potências pudessem se encaminhar para esclarecer as suspeitas sobre o polêmico programa atômico iraniano.

 

A questão de fundo está em que o Irã não foi à reunião em Viena com uma proposta fechada para enviar seu urânio ao exterior, como tinha sido definido em Genebra, mas propôs comprar o material de que precisa para seu reator experimental, o que a comunidade internacional não aceita.

 

O Conselho de Segurança da ONU impôs três rodadas de sanções ao Irã por não cumprir a exigência de parar seus trabalhos de enriquecimento de urânio e, entre as punições econômicas e políticas, está a proibição de obter essa matéria-prima no mercado internacional.

 

As potências pretendiam tirar do Irã 1,2 tonelada de urânio pouco enriquecido, grande parte da 1,5 tonelada que produziu contra as exigências internacionais, o que aplacaria as suspeitas de que pretende purificar essa substância até conseguir uma arma nuclear. Além disso, reduziria drasticamente suas reservas de urânio, já que, para produzir uma bomba atômica, são necessárias cerca de 2 toneladas desse material enriquecido a 90%.

 

O urânio que se pretendia extrair do Irã seria reprocessado na Rússia e na França, e seria devolvido a Teerã como combustível nuclear para alimentar um reator médico que permite o diagnóstico e o tratamento do câncer. Essa instalação foi comprada dos EUA antes da Revolução Islâmica de 1979.

 

O Irã advertiu, pouco antes do começo da negociação, que, caso esta fracasse, enriquecerá por conta própria o urânio até 20% de pureza, o nível necessário para o reator médico.

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