Netanyahu se diz pronto para retomar negociações de paz

Apesar do tom conciliatório nos EUA, premiê israelense descarta Estado palestino, apoiado por Obama

Gustavo Chacra, correspondente de O Estado de S. Paulo,

18 Maio 2009 | 15h23

  

 Foto: AP

 

NOVA YORK - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, não chegaram a divergir no primeiro encontro entre os dois como governantes de seus países, contrariando previsões de analistas. A diferença na postura dos líderes se deu no tom e na terminologia adotada para a ameaça iraniana e a questão palestina, que foram os temas que dominaram a conversa desta segunda-feira, 18, na Casa Branca.

 

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De um lado, Obama defendeu mais iniciativas diplomáticas para impedir o Irã de desenvolver armas nucleares e pregou a criação de um Estado palestino. Mais conservador, Netanyahu ressaltou os riscos à existência de Israel caso o regime iraniano adquira uma bomba atômica e disse que os palestinos devem governar a si próprios, mas não utilizou a palavra "Estado."

 

Adotando um tom mais moderado, Obama afirmou que "até o fim do ano, nós deveremos ter uma ideia se as discussões envolvendo o Irã já começaram a produzir benefícios (...), mas não podemos dialogar para sempre", acrescentou em advertência a Teerã de que pode endurecer as sanções econômicas e políticas.

 

Para o líder da Casa Branca, "não é do interesse do próprio Irã desenvolver armas nucleares. Isso provocaria uma corrida armamentista no Oriente Médio que desestabilizaria toda a região". Na avaliação de Obama, no comunicado conjunto com Netanyahu depois do encontro, "o Irã pode alcançar sua segurança, o respeito internacional e a prosperidade de seu povo por outros meios."

 

Graduado no MIT, uma das mais conceituadas universidades americanas, o primeiro-ministro de Israel respondeu em um inglês fluente que o "maior perigo que nós enfrentamos é o risco de o Irã desenvolver armas nucleares. O Irã defende abertamente a nossa destruição, o que é inaceitável". Netanyahu ressaltou ainda que os interesses de Israel coincidem com os de alguns países árabes, como Egito e Arábia Saudita. "Nunca houve um momento como agora, quando árabes e israelenses sofrem uma ameaça comum", disse.

 

Israel não descarta uma operação militar preventiva contra instalações militares do Irã. No fim do ano passado, o então primeiro-ministro, Ehud Olmert, chegou a consultar os EUA sobre uma possível ação contra o território iraniano, mas recebeu o sinal vermelho. A chance de Obama concordar com uma operação deste porte é ainda menor. Mas, em Israel, muitos analistas consideram as iniciativas diplomáticas inócuas, permitindo ao Irã ganhar tempo para conseguir seu arsenal nuclear.

 

DEFESA PALESTINA

 

Obama foi muito claro ao defender um Estado palestino no encontro. "É do interesse não apenas dos palestinos, mas também dos israelenses e dos Estados Unidos uma solução de dois Estados, na qual palestinos e israelenses vivam lado a lado em paz e segurança", disse.

 

Para o presidente, o processo de paz, para avançar, necessita que, de um lado, se encerrem as ações terroristas contra Israel e, do outro, "deve permitir que os palestinos se governem em um Estado independente, com desenvolvimento econômico". Netanyahu iniciou o seu discurso dizendo que pretende ter paz com todo o mundo árabe - mas não mencionou a proposta da Liga Árabe, que propôs estabelecer relações de todos os países árabes com Israel em troca da retirada israelense dos territórios ocupados.

 

De acordo com o primeiro-ministro, para haver um compromisso, "os palestinos precisam reconhecer Israel como um Estado judaico". O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, se recusa a fazer este reconhecimento, dizendo que apenas aceita a existência do país Israel e não quer entrar no mérito da religião.

 

"Gostaria de deixar claro que não quero governar os palestinos. Quero que os palestinos governem a si próprios, a não ser por alguns poderes que coloquem em risco o Estado de Israel", finalizou o primeiro-ministro. A retomada das negociações de paz entre Israel e Síria, que tem feito parte da agenda da administração de Obama, não foram abordadas no comunicado conjunto dos dois dirigentes. Tampouco se mencionou se o Hamas deve ou não participar de um futuro diálogo envolvendo israelenses e palestinos.

 

Um assessor de Abbas elogiou o discurso de Obama, mas se disse desapontado com Netanyahu. A agência de notícias Irna, do Irã, não tinha comentários do encontro entre o presidente dos EUA e o primeiro-ministro de Israel.

 

(Texto atualizado às 19h55)

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