'Ninguém está otimista' com paz, diz analista árabe-israelense

Com trânsito entre palestinos e israelenses, jornalista afirma que negociações não levarão à criação da Palestina

André Mascarenhas, do estadao.com.br,

06 de setembro de 2007 | 12h52

O jornalista árabe-israelense Khaled Abu Toameh está pessimista com a perspectiva de que um acordo de paz entre palestinos e israelenses aflore de uma nova rodada de negociações entre líderes das duas partes prevista para novembro. E ele não é o único.Incursão israelense em Gaza mata 6 palestinos  Em entrevista ao portal estadao.com.br, nesta quinta-feira, 6, o repórter responsável por cobrir as negociações para o jornal de centro-direita Jerusalém Post afirma que a população nos territórios palestinos não reconhecem no presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas, um representante apto para a tarefa. "A questão é: Abbas tem um mandato para negociar em nome dos palestinos?" Mas o problema também aparece do lado israelense, onde o premiê Ehud Olmert encontra-se enfraquecido desde a atuação desastrosa de Israel durante o conflito contra o Hezbollah no Líbano, há um ano. "Todas as expectativas são de que a coalizão governista entrará em colapso em breve, levando a novas eleições". No Brasil para uma série de palestras sobre jornalistas em situação de conflito, Tomaeh também falou - entre um cigarro e outro, sempre se expressando de maneira sucinta e contundente - sobre o inconciliável racha político entre o grupo laico Fatah e o islâmico Hamas, que há três meses resultou na expulsão do Fatah da Faixa de Gaza. Para ele, a crescente divisão pode resultar numa nova forma de "intifada" - dessa vez do Fatah contra o Hamas.  "Há pessoas no Fatah, talvez com a ajuda dos EUA e de Israel, que estão tentando lançar uma 'intifada' contra o Hamas. A questão é: eles serão capazes de levar as massas com eles? Até agora é um número limitado de pessoas. As próximas semanas nos mostrarão se isso crescerá." Leia a seguir os principais trechos da entrevista: Após meses de impasse nas negociações entre israelenses e palestinos, o premiê israelense Ehud Olmert e o presidente palestino, Mahmoud Abbas, preparam-se para uma nova rodada de contatos, que para algumas pessoas pode levar à criação de um Estado palestino em breve. É verdade, entretanto, que esse processo só foi possível depois que o Hamas foi isolado pelo Ocidente. Nesse contexto, como a população palestina está reagindo a essa iniciativa? As pessoas estão otimistas?Ninguém está otimista. Especialmente porque Ehud Olmert e Mahmoud Abbas estão muito fracos agora. Abbas acaba de perder para o Hamas, e já não tem o controle da Faixa de Gaza. A questão é: ele tem um mandato para negociar em nome dos palestinos, em um momento em que os palestinos estão tão divididos? Ao mesmo tempo, Olmert também está enfrentando muitos problemas em casa. Houve uma comissão de inquérito sobre a guerra do Líbano que o indiciou. E todas as expectativas são de que a coalizão governista entrará em colapso em breve, levando a novas eleições. Então, não há altas esperanças nos dois lados para essa conferência.  Mas e entre as pessoas? Como os palestinos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza estão respondendo a essa iniciativa? Elas estão se envolvendo com esse processo?Para a maioria dos palestinos hoje, a principal preocupação é a questão interna: o que está acontecendo dentro dos territórios, e não a relação com Israel. A maioria dos palestinos está preocupada com a divisão entre Cisjordânia e Gaza. Eles estão muito preocupados com seu futuro, por causa dessa disputa de poder entre o Fatah e o Hamas. Essa briga interna entre o Fatah e o Hamas destruiu o sonho dos palestinos pela criação de um Estado. O senhor acredita que esse processo de negociação poderá levar a alguma conclusão importante?É um bom passo. Pode criar uma boa atmosfera. Mas eu não espero que nada "dramático" saia desse encontro. Porque os Estados Unidos e Israel só estão falando com o Abbas, que só controla a Cisjordânia, o que é metade dos palestinos. Então, o melhor que pode sair daí é um Estado palestino apenas na Cisjordânia. Porque o Hamas vai dizer não, e vai haver uma forte oposição para qualquer acordo que Abbas conseguir lá.  À distância, a polarização da política palestina entre Hamas e Fatah parece um caminho sem volta. Existem outras alternativas políticas atualmente?Felizmente, nem todos os palestinos são do Fatah ou do Hamas. Nos últimos meses, temos visto uma tentativa encabeçada por executivos e intelectuais palestinos para criar uma terceira via. Uma alternativa para esses dois partidos, e isso é muito encorajador. Mas ainda estamos nos primeiros estágios. É algo muito fraco, jovem e ainda não emergiu. Mas há tentativas. E como seriam as características dessa terceira via? Seria um partido que ofereceria melhores alternativas do que o Fatah e o Hamas. Porque ambos falharam. A disputa de poder na Autoridade Palestina não é entre "caras bons" e "caras maus". É entre caras maus e caras maus. Eles não estão brigando sobre o processo de paz. Não estão brigando para reformar a democracia. Estão brigando por dinheiro e poder. E essa briga faz os palestinos comuns pagarem um preço alto. São os homens nas ruas que estão pagando o parto. Então há apenas duas formas (de mudança): ou a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), que é formada principalmente pelo Fatah, passa por reformas e se livra da corrupção para oferecer uma alternativa aos palestinos, ou deve haver uma terceira via. Mas a OLP está bloqueando as reformas.  É possível imaginar um bloco de políticos palestinos que não possua um braço militar?Não. É impossível. Nós vivemos em uma cultura uniforme, onde é uma característica da sociedade usar armas. Elas te dão força. A disputa de poder não é apenas entre políticos. É também entre as milícias. Quanto mais milícias você tem, quanto mais armas, mais forte você é.  Faz cerca de três meses que o Hamas tomou o controle total da Faixa de Gaza, quebrando um acordo de governo de união estabelecido com o Fatah. Como está a situação na região hoje?Calma. Havia muita anarquia e falta de cumprimento às leis em Gaza quando a OLP estava no controle. Desde que o Hamas chegou, há (uma sensação de que a) lei e ordem (estão sendo cumpridas). Não está muito melhor, mas ao menos você não vê milícias nas ruas, não vê seqüestros, não vê estupros, não vê extorsão. Eram as forças de segurança palestinas do Fatah os responsáveis pela maioria da anarquia em Gaza. Não o Hamas. Eles que estavam por trás do seqüestro de jornalistas e da maioria das coisas ruins. Então quando o Hamas chega, eles põe em prática a lei e a ordem, de sua própria maneira. Nas últimas semanas vimos algumas tentativas de membros do Fatah em realizar protestos contra o Hamas em Gaza. Isso é uma tendência?Há pessoas no Fatah, talvez com a ajuda dos EUA e de Israel, que estão tentando lançar uma 'intifada' contra o Hamas. A questão é: eles serão capazes de levar as massas com eles? Até agora é um número limitado de pessoas. As próximas semanas nos mostrarão se isso crescerá. Até que ponto o presidente Abbas está envolvido com o braço militar do Fatah?Ele é o chefe do Fatah, que não tem apenas um braço militar. Eles têm muitos. Abbas não é o responsável por dar as ordens diretas aos milicianos. Mas eles são leais ao presidente, e muitos estão na folha de pagamento da Presidência. Ou seja, ele não pode se abster da responsabilidade pelas ações dos grupos armados.  A que o senhor atribui o fato de os Estados Unidos e Israel apoiarem Abbas, dado que é claro que ele está enfraquecido e não tem representatividade entre boa parte dos palestinos?Eu sempre me pergunto essa questão. Por que eles estão fingindo, como se tudo estivesse bem e Abbas fosse alguém poderoso? Veja, e não é apenas isso. Eles estão causando mais estragos apoiando Abbas. Quando os Estados Unidos e Israel apóiam abertamente Mahmoud Abbas, eles fazem com que o presidente pareça um colaborador. Quando os palestinos vêem Condoleezza Rice, George Bush e Ehud Olmert falando coisas boas sobre seus líderes, significa que há algum problema aí. E digo mais uma vez: duvido que Abbas tenha mandato. Se tivéssemos uma eleição nos territórios palestinos amanhã de manhã, a maioria dos palestinos não votaria de novo no mesmo Fatah que votaram no passado. Porque o Fatah não mudou, e precisa passar por sérias reformas. O senhor acha que o Hamas ganharia de novo caso uma eleição fosse realizada?Claro. Por que você acha que o Hamas conseguiu derrotar o Fatah em Gaza? O Fatah possuía seis ou sete vezes mais homens do que o Hamas. Mas as pessoas apoiaram o Hamas. As pessoas estavam cheias do Fatah. Eles disseram: o Fatah é corrupto, vamos tirá-los daqui. Podemos considerar o estilo de governo do Hamas autoritário?Não. O Hamas não é a Al-Qaeda, não é o Taleban. Veja, eles não são democratas ao estilo ocidental, mas são mais pragmáticos que o Taleban. O Hamas é inspirado na Irmandade Muçulmana. E a estratégia da Irmandade Muçulmana é ganhar os corações e mentes das pessoas através do diálogo, e não impondo o Islã pela força. E essa é uma das razões pela qual eles ganharam as eleições. E seria possível a coexistência de um Estado Palestino controlado pelo Hamas ao lado de Israel?Por que você acha que seria impossível? Porque o Hamas diz que Israel não deveria existir.E daí? Eles não reconhecem Israel, e Israel não os reconhecem. Por que Israel precisaria do reconhecimento do Hamas?  Mas aí não seria um Estado.Veja, o que temos em Gaza já é um Estado. Um Estado islâmico. E daí? Israel não precisa do Hamas. Israel deve conversar com qualquer palestino que queira conversar. E não deve conversar com quem não reconhece seu Estado. É simples assim. Por que sempre queremos condições? Por que sempre queremos que o Hamas reconheça Israel? Eles não reconhecem. E não vão acordar um dia de manhã e mudar de opinião. Mas veja, se eu fosse Israel, não conversaria com o Hamas sobre o processo de paz, mas sim sobre a redução da violência. Isso é importante. Israel precisa de um parceiro que pode dar essa mensagem. Um parceiro que seja forte e confiável. Então fale com o Hamas sobre como acabar com a violência. Isso é bom. Por que temos vistos que o Hamas é capaz de impor disciplina.  Mas como seria a reação da opinião pública israelense? Veja, já há gente dizendo 'precisamos falar com o Hamas'. Porque talvez não haja outras opções. Por que nós distinguimos o Fatah do Hamas? O Fatah tem mais sangue judeu em suas mãos do que Hamas, por sinal.  Mas Israel estaria disposto a fazer concessões ao Hamas? Não apenas ao Hamas. Israel mudou. Israel já desistiu da Faixa de Gaza. A maioria dos israelenses hoje acredita em um Estado palestino, em uma solução de dois Estados. E essa também é uma mudança muito boa. A maioria dos israelenses estão prontos para desistir de grande parte da Cisjordânia, e até partes de Jerusalém em troca de uma paz verdadeira. Na condição de que haja um parceiro confiável do lado palestino. Então, uma vez que houver uma liderança forte e carismática no lado palestino, mais israelenses irão dizer, fique com isso, e nos deixe em paz.  Se essa solução de dois Estados for adiante, o senhor acredita que os militantes palestinos pararão de lançar foguetes contra Israel?Eles nunca pararão. Sempre haverá um palestino que é contra o processo de paz e que atirará foguetes. Se não for o Hamas será a Jihad Islâmica, se não for a Jihad Islâmica, será o Fatah... Sempre haverá oposição. Mas o que eu estou dizendo é: se você quer a paz, faça com a maioria dos palestinos. Faça dos terroristas e radicais uma pequena minoria.  E qual seria a reação nos países árabes caso um Estado palestino seja criado nos termos das negociações em curso?Eu não acho que um Estado palestino possa sobreviver por si só. Ele não é viável economicamente. A Cisjordânia e Gaza não possuem nada. Não há recursos naturais. Ou seja, sem a cooperação e a ajuda da comunidade internacional e árabe, a Palestino não sobreviveria. Onde no mundo você tem uma situação em que governos estrangeiros pagam os funcionários civis do Estado? Então seria um pobre país do terceiro mundo. Eles sempre precisarão da ajuda de americanos, europeus e árabes. Como o senhor definiria o status dos árabes-israelenses hoje em Israel?Nós somos 1,5 milhão de pessoas, o que representa 20% da população israelense. E temos vários problemas, como uma minoria. Não somos a única minoria com problemas, mas somos a maior, com os maiores problemas. Os árabes sentem que o Estado os discrimina quando direciona fundos para a educação, serviços, emprego; está em todas as partes. E o governo israelense diz, "sim é verdade". Todos os governos israelenses que chegam ao poder dizem "há um problema com o setor árabe, nós queremos ajudar a resolver". Mas no fim só fazem o mínimo. E eu estou muito preocupado, porque acho que se as políticas atuais continuarem discriminando os árabes, a terceira intifada será nas ruas de Israel. Muitos judeus israelenses têm medo dos árabes. E isso é muito preocupante, porque somos cidadãos leais. Não estamos tentado destruir Israel, pelo contrário, queremos integração. Queremos mais empregos nos serviços públicos e privados, queremos ser parte do Estado judeu. Israel deveria ser um Estado judeu para todos os cidadãos.  Você se vêem como israelenses?Sim. Não temos problemas com o direito de Israel existir. O dilema em que vivemos é que nosso Estado está em guerra com o nosso povo. E nós, como árabes-israelenses, podemos servir de ponte entre os judeus e nossos irmãos palestinos na Faixa de Gaza e Cisjordânia.

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