No frágil Iêmen, EUA enfrentam desafio de um líder em conflito

Uma das tarefas mais delicadas de Obama será lidar com Ali Saleh, que pretende perpetuar família no poder

Steven Erlanger, The New York Times ,

09 de janeiro de 2010 | 18h15

Os Estados Unidos aumentaram rapidamente sua ajuda ao Iêmen, país que consideram uma nova frente contra a Al-Qaeda. Mas uma das tarefas mais delicadas será administrar as relações com o presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, que empregou numerosos membros de sua família em cargos oficiais, e quer garantir que seu filho Ahmed o suceda na presidência, afirmam funcionários iemenitas, analistas e diplomatas ocidentais.

 

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Saleh, 67, é inteligente e espirituoso. Mas, nos dois últimos anos, dedicou menos tempo à administração das complicadas exigências tribais e regionais do frágil Iêmen e muito mais à tentativa de consolidar o poder de sua família, dizem os analistas. À medida que as receitas do petróleo do país se reduzem e Saleh dispõe de menos recursos para usar, o alcance do governo central está encolhendo - "o governo está praticamente aprisionado na capital", disse um diplomata ocidental de carreira em Sanaa.

 

Saleh apresenta para o governo Obama um problema muito comum no Afeganistão e no Paquistão. É muito favorável ao apoio americano, mas sua burocracia corrupta e ineficiente é bastante limitada. E sua disposição a fazer frente à Al-Qaeda, que ele não considera seu principal inimigo, é questionável.

 

O tumulto domina grande parte do país. As forças do governo mataram na segunda-feira dois militantes suspeitos de pertencerem à Al-Qaeda. Há mais uma onda de rebelião no norte e um crescente movimento secessionista no sul. Em importantes províncias onde se encontram os recursos fundamentais do petróleo e onde a Al-Qaeda é forte, na Península Arábica, tropas do governo e a polícia permanecem na maior parte em seus quartéis ou nas cidades. Fora das cidades, a ordem é mantida pelos chefes tribais, cuja lealdade constitui um problema complicado.

 

"Não se vê ninguém com o uniforme do governo em Abyan", disse Murad Zafir, um analista político iemenita, falando da província do sul. "Em grandes áreas do país não há eletricidade, água corrente e nem mesmo autoridade central".

 

A ajuda dos EUA era insignificante até o ano passado, e somente quando os serviços secretos americanos mostraram a Saleh que sua família estava se tornando alvo da Al-Qaeda, ele começou a levar a sério a ameaça de golpe, consideram diplomatas.

 

A eficiência da reação do governo a esta ameaça depende em grande parte da família de Saleh. Ahmed Saleh é o chefe da Guarda Republicana do Iêmen e das forças especiais do país.

 

Entre os sobrinhos do presidente - filhos de seu falecido irmão - estão Amar, vice-diretor de segurança nacional: Yahye, chefe das forças centrais de segurança e da unidade de contraterrorismo; e Tarek, chefe da Guarda Presidencial. O meio irmão do presidente é comandante da força aérea.

 

O fato de o Iêmen ser uma espécie de empresa familiar, que também enriqueceu, faz parte do problema, disse Zafir; a mesquita do presidente, a Mesquita Al-Saleh, foi concluída há quase dois anos e teria custado pelo menos US$ 120 milhões. "O presidente Saleh quer que seu filho seja o seu sucessor", ele disse. Para tanto, Saleh procurou consolidar o poder nas mãos da sua família, mas sua influência sobre os chefes tribais diminuiu, acrescenta.

 

Najeeb Saeed Ghanem, ex-ministro da Saúde, é membro do Parlamento pelo maior partido da oposição, o Islah, um partido islâmico com estreitos vínculos com os grupos tribais. "O que nos assusta é a dimensão da deterioração do regime e do seu controle sobre o país", afirmou.

 

Com a queda das receitas petrolíferas, Saleh foi obrigado a recorrer a aliados externos em busca de financiamento para a guerra no norte. No ano passado, a Arábia Saudita emprestou US$ 2 bilhões para cobrir o déficit orçamentário - quantia diante da qual parecem insignificantes os US$ 150 milhões em assistência à segurança que os EUA pedirão ao Congresso no exercício fiscal de 2010.

 

"Os sauditas compreendem", disse Ahmed M. al-Kibisi, um cientista político da Universidade de Sanaa, "que eles são o prêmio ambicionado para a Al-Qaeda, e o Iêmen é a plataforma".

 

Mas há empecilhos ao objetivo de Saleh de transferir o poder ao filho, quando não desafios diretos a ele próprio. Um dos seus principais aliados, quando ainda coronel em 1977, tomou o poder no norte, foi Ali Mohsen. Agora, ele é o comandante militar encarregado de esmagar a rebelião dos Houthi no norte. Os houthis são xiitas, e Mohsen é tido como religioso conservador sunita.

 

Saleh e Mohsen não são parentes e não são considerados rivais para a presidência. Mas Mohsen indicou que não é favorável à sucessão direta de Ahmed Saleh ao cargo máximo do país, disseram diplomatas e analistas. Mohsen acredita, segundo eles, que o jovem Saleh não possui a força e o carisma de seu pai e não conseguirá manter o país unido.

 

A tensão entre os dois antigos camaradas é visível nas críticas à condução da guerra no norte, e, às vezes, funcionários do governo se queixam de que Mohsen desencadeou um novo conflito com a ocupação ou a destruição das mesquitas e dos lugares sagrados dos houthis, e com a construção de mesquitas e escolas sunitas nessa região. Os partidários de Mohsen contra-argumentam que a guerra não teve o apoio total do governo central.

 

Saleh e seu filho enfrentam outro desafio interno apresentado pela próxima geração da poderosa família Ahmar, de sangue azul iemenita. O xeque Abdullah al-Ahmar foi o chefe da poderosa tribo Hashed, fundou o partido Islah e presidiu o Parlamento até vir a falecer, em dezembro de 2007. Um dos seus filhos, Hamid al-Ahmar, um empresário de pouco mais de 40 anos, agora é o presidente do Islah.

 

Saleh procurou manter-se próximo à família, particularmente deixando que Hamid al-Ahmar investisse em atividades muito lucrativas, como a principal empresa de telefonia móvel, a SabaFon, interesses petrolíferos e o Banco de Saba.

 

Mas em agosto, Hamid al-Ahmar deixou os iemenitas atônitos ao comparecer diante das câmeras da Al-Jazeera para dizer que o mandato de Saleh havia vencido há tempo, e pediu que ele deixasse o poder e não tentasse entronizar o filho. "Se Saleh quer que o povo do Iêmen permaneça ao seu lado contra a monarquia e defenda a unidade nacional, deve parar de procurar a volta da monarquia", declarou.

 

A possibilidade de os EUA administrarem com sucesso as ambições de Saleh e de sua família dependerá do sucesso ou do fracasso contra a Al-Qaeda.

 

"Washington deve trabalhar com o regime e por trás dele, independentemente dos seus erros, tentando ao mesmo tempo conduzir Saleh à reconciliação com seus adversários", disse um diplomata ocidental. "Mas temo que isto exija um grau de delicadeza que está acima da capacidade do Pentágono".

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