'O povo de Gaza precisa de incentivos'

Analista político e ex-negociador israelense, Daniel Levy falou ao Estado sobre o recente cessar-fogo na Faixa de Gaza, a possibilidade de um acordo no Cairo e o incidente diplomático que envolveu o Brasil. Levy, que mora em Londres, tomou parte do diálogo com a Autoridade Palestina sob o governo dos premiês Yitzhak Rabin e Ehud Barak.

Entrevista com

Daniel Levy

Alessandro Giannini, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2014 | 02h00

O que deu certo no cessar-fogo que começou na terça-feira?

Duas ou três coisas. Primeiro, os dois lados estão exaustos. Em segundo lugar, é quase o oposto, ambas as partes se cansaram de proclamar vitória. A terceira coisa: os egípcios decidiram que o Hamas continua sendo seu inimigo, isso faz parte da luta deles. Mas os egípcios decidiram que vão colocar mais ênfase no sucesso da mediação do que na humilhação do Hamas e na vingança contra o grupo. Além disso, as intensas críticas internacionais levaram muito tempo antes de fazer efeito. E só se concretizaram graças a alguns países na sua região, incluindo o Brasil, que foi um dos primeiros a tomar medidas nesse sentido. Se outros países tivessem feito o que o governo brasileiro fez, a trégua viria antes.

Com todas essas condições de que o sr. falou, existe alguma possibilidade de a negociação no Cairo ter sucesso?

Acho que há uma boa possibilidade de que esse cessar-fogo se sustente e talvez alcance algum entendimento no Cairo. No entanto, estou muito preocupado que não haja mudança real no terreno e, mesmo que se alcance um acordo, ele não seja implementado. Em acordos anteriores, Gaza continuou fechada, bloqueada, quase como uma prisão a céu aberto. A não ser que algum incentivo para o povo de Gaza seja criado, que eles vejam que quando houver paz poderão voltar a se reunir ao mundo, então há esperança.

O que leva Binyamin Netanyahu a fazer pouco das críticas e não mudar de posição com relação à ocupação?

Há duas coisas. Netanyahu não acredita que os palestinos possam ter um Estado soberano e genuíno com jurisdição sobre suas terras. Em segundo lugar, Netanyahu não sofre nenhuma consequência prática em razão de sua política. Os israelenses não têm de fazer escolhas. Eles não precisam pensar que se não permitirmos que os palestinos tenham um Estado e liberdade, a economia de Israel e as relações internacionais serão afetadas, que sofreremos as consequências. A ação tomada pelo Brasil e alguns outros países na América do Sul são exceções.

O que pensa do que ocorreu com o Brasil? E quais seriam a consequências para nós?

Acho que o Brasil ganhou muito respeito, não creio que haverá consequências negativas. Infelizmente, esse incidente refletirá negativamente apenas no Ministério das Relações Exteriores de Israel. A resposta deles foi infantil, ofensiva. A diplomacia israelense está num de seus pontos mais baixos historicamente e o Brasil deve saber que está em muito boa companhia. Os insultos feitos ao governo brasileiro são quase nada se comparados aos feitos aos americanos, aos turcos e a qualquer outro país.

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