Obama e Israel enviam mensagem de conciliação ao Irã

Presidentes americano e israelense pedem que povo iraniano deixe de lado décadas de confronto

Agências internacionais,

20 de março de 2009 | 13h24

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ofereceu "um novo começo" nas relações com Teerã, em uma mensagem de vídeo sem precedentes dirigida ao povo iraniano. "Meu governo está comprometido com uma diplomacia que cuide de todas as questões diante de nós", disse Obama. O presidente de Israel, Shimon Peres, emitiu mensagem semelhante nesta sexta-feira, 20, pedindo para que a população exija o seu lugar entre as "nações esclarecidas". As mensagens foram divulgada para coincidir com o festival do Nowruz, que marca o início de um novo ano e da primavera no Irã, e sugerem que existe um posto de igualdade para o Irã na comunidade internacional.

 

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O discurso, um dos mais importantes em política externa feitos até o momento por Obama como presidente, foi gravado por ocasião do início, do Nowruz, ou "novo dia", um feriado de 12 dias de duração que marca a chegada a primavera no hemisfério norte e a chegada de um novo ano pelo calendário persa. Uma versão do vídeo com legendas em farsi foi distribuída às agências de notícias da região. Em resposta, o governo iraniano informou que recebe com satisfação a aproximação, mas advertiu que as últimas décadas de desconfiança e animosidade mútuas não poderão ser apagadas com facilidade.

 

Obama disse que seu governo está comprometido com a busca de "laços construtivos" com a república islâmica e que Teerã pode assumir seu lugar de direito no mundo se renunciar ao "terrorismo" e abraçar a paz. "Meu governo está comprometido com a diplomacia no que concerne a um amplo espectro de questões diante de nós, e para buscar laços construtivos entre os Estados Unidos, o Irã e a comunidade internacional", afirmou Obama. "Por quase três décadas, as relações entre nossos países foram tensas", observou o presidente. "Mas neste feriado somos lembrados da humanidade que nos une." Os dois países não mantêm relações diplomáticas desde a Revolução Islâmica de 1979.

 

Segundo o jornal israelense Haaretz, a mensagem de Peres, gravada parcialmente no idioma iraniano, foi divulgada nesta sexta-feira, 20, em uma rádio israelense com grande audiência entre os que falam farsi. Peres também falou diretamente ao povo iraniano, afirmando que os interesses da população do Irã não estão sendo encontrados. "Nossos laços com o povo iraniano já conheceram dias de prosperidade até mesmo em tempos modernos, quando compartilhamos nossas experiencias na agricultura, na ciência e nos desenvolvimentos da medicina, e trabalhamos para desenvolver as melhores relações com vocês", afirmou o presidente israelense.

 

"Infelizmente, nesses dias, as relações entre os nossos países estão em um ponto baixo que conduz os líderes atuais de seu país a agir contra o Estado de Israel e seu povo de todo modo possível. Porém, estou convencido de que não está longe o dia em que nossas duas nações vão restaurar as relações de boa vizinhança e cooperação para a prosperidade em todos os caminhos"

 

"No começo deste novo ano", "peço ao nobre povo iraniano, em nome dos povos judaicos antigos, exijam seu merecido lugar entre as nações esclarecidas do mundo", afirmou Peres no discurso. "As coisas no Irã estão difíceis", afirmou o presidente no começo de sua mensagem de congratulação ao ano novo persa. "Há grande índice de desemprego, corrupção, tráfico de drogas e descontentamento geral? Vocês não podem alimentar suas crianças com enriquecimento de urânio, vocês precisam de um verdadeiro café da manhã. Não é possível que o dinheiro seja investido em enriquecimento de urânio e algumas crianças permaneçam com fome". "(Sugiro a vocês que) Não escutem (o presidente iraniano, Mahmoud) Ahmadinejad; é impossível preservar uma nação inteira com o incentivo ao ódio, o povo ficará cansado disso".

 

Obama: 'novo começo"

 

Obama, que desde antes de assumir a presidência tem sinalizado disposição de conversar diretamente com o Irã sobre seu programa nuclear e a hostilidade entre Irã e Israel, disse que as celebrações do Nowruz marcam um "novo começo" e afirmou que quer "falar claramente aos líderes iranianos" sobre a necessidade de uma nova era de "relacionamento honesto, baseado no respeito mútuo". Sem repetir as tradicionais acusações americanas quanto ao apoio iraniano a atividades consideradas "terroristas" por Washington nem mencionar o programa nuclear da república islâmica, Obama disse que "os EUA querem que a República Islâmica do Irã assuma seu lugar de direito na comunidade de nações".

 

Ele ressalvou, porém, que "isto acarreta responsabilidades reais" e declarou que "esse lugar não pode ser atingido por meio do terror ou de armas, mas sim através de ações pacíficas que demonstrem a verdadeira grandeza do povo e da civilização iraniana". Segundo Obama, "a medida dessa grandeza não é a capacidade de destruir, mas a sua demonstrada capacidade de construir e criar". Apesar da ressalva, o discurso do presidente americano sinalizou claramente que seu governo reconhece o Irã como um possível parceiro de negociação e deixou claro que Obama tirou da mesa a opção militar como forma de impedir o Irã de eventualmente obter armas nucleares.

 

Recentemente, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, disse que seu país aceitaria conversar diretamente com os EUA, mas somente se houvesse respeito mútuo. Funcionários iranianos disseram que isso significa que Washington precisaria parar de acusar Teerã de buscar armas nucleares e de apoiar o terrorismo. O Irã rejeita ambas as acusações. Já o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, acusou recentemente Obama de dar continuidade às políticas de seu antecessor, George W. Bush, com relação a Israel. Khamenei considera Israel "um tumor canceroso" à beira do colapso e defende sua destruição. Os EUA são os principais aliados internacionais de Israel.

 

O porta-voz de Ahmadinejad respondeu à mensagem em vídeo de Obama observando que "mudanças pequenas não fazem diferença". "Obama falou em mudança, mas não tomou nenhuma medida prática quanto aos erros passados da América no Irã. Se o senhor Obama adotar medidas concretas e promover mudanças fundamentais na política externa americana com relação a outras nações, entre elas o Irã, o governo e o povo iranianos não voltarão as costas para ele", declarou Ali Akbar Javanfekr, assessor de imprensa de Ahmadinejad, em entrevista à Press TV, emissora estatal iraniana em inglês.

 

De acordo com Javanfekr, a hostilidade dos EUA com relação ao Irã é a principal responsável pelas más relações entre os dois países. Ele observou ainda que os iranianos "nunca se esquecerão" de ações americanas no passado. Entre essas ações passadas, ele citou o apoio dos EUA ao golpe de Estado de 1953, no qual foi derrubado o primeiro-ministro democraticamente eleito Mohamed Mossadegh, o apoio a Saddam Hussein na Guerra Irã-Iraque (1980-1988) e a derrubada de um avião civil iraniano por uma embarcação militar americana em 1988.

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