ONG pede revisão do caso de iraniana acusada de adultério à ONU

Em carta, ativista pede que Ban envie delegação ao Irã para investigar informações sobre Sakineh

estadão.com.br,

14 de agosto de 2010 | 17h42

SÃO PAULO- O Comitê Internacional contra Apedrejamento publicou em seu site nesta sexta-feira, 13, uma carta aberta ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, apelando para que o órgão internacional envie uma delegação ao Irã para revisar o caso de Sakineh Mohammadi-Ashtiaani, mulher de 43 anos inicialmente condenada a apedrejamento por adultério e agora acusada pelo assassinato de seu marido.

 

A ativista alerta a Ban que Sakineh pode ser executada a qualquer momento e, por isso, pede que uma delegação da ONU seja enviada imediatamente ao Irã para investigar as acusações feitas pelo regime contra a iraniana e rever seu caso.

 

Leia a carta na íntegra:

 

Caro Sr. Ban Ki-Moon,

 

Recentemente nós recebemos notícias muito preocupantes do Irã, a respeito do caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani. As notícias recentes indicam que Sakineh, uma mulher de 43 anos presa em Tabriz que foi condenada à morte por apedrejamento pela República Islâmica do Irã, está agora correndo sério risco de ser executada na forca. Nos últimos três anos eu tenho me envolvido ativamente no caso Sakineh, tentando salvá-la da pena de morte à qual ela foi condenada e, portanto, tenho conhecimento de todos os detalhes deste caso.

 

Estou apelando para que você intervenha imediatamente para ajudar a salvar a vida de Sakineh. Primeiro, ela foi condenada a 99 chibatadas e depois ao apedrejamento pela corte da província de Tabriz (capital do Azerbaijão do Leste), acusada de "adultério", e a sentença foi confirmada em seguida pela Suprema Corte de Teerã. Há outra investigação em andamento que envolve a morte do marido de Sakineh e, de acordo com os documentos das cortes do regime, Ashtiani foi considerada inocente e outra pessoa foi condenada pela morte de seu marido; essa pessoa acusada confessou o assassinato e já foi presa.

 

Agora, graças a tentativa dos filhos de Sakineh Mohammadi para ajudar a salvar a vida de sua mãe e à poderosa pressão internacional, o regime está trocando as acusações contra Sakineh, acusando-a de ter assassinado seu marido.

 

Na última quarta-feira, Sakineh apareceu em um programa da TV estatal para fazer uma confissão pública. O programa chama "20h30" e é o mais assistido da República Islâmica. Durante a transmissão, Ashtiani estava lendo um papel em suas mãos e sua fala foi pouco clara. Durante o programa, eles leram um texto acusando-a de estar envolvida no assassinato de seu marido, o que é uma mentira. O fato de ela ter sido condenada à morte por apedrejamento não foi mencionado, nem discutido. O significado deste programa é que o governo islâmico está tentando legitimar sua decisão antes da opinião pública e nós tememos que sua pena de morte seja executada muito em breve.

 

Nós gostaríamos de informá-lo que não existe acusação civil contra Ashtiani. São as autoridades de Tabriz e os oficiais do governo que estão atuando como promotores, e por alguma razão, eles querem matá-la a qualquer custo.

 

Não é a primeira vez que o Irã coloca uma vítima inocente em um programa televisionado e a mata logo depois, com base em suas confissões forçadas - infelizmente, isso já aconteceu várias vezes.

 

A República Islâmica espalhou propaganda contra Neda Agha após sua morte, acusando sua família de ter planejado seu assassinato; e houve uma campanha contra Taraneh Mousavi, acusando sua família pela sua morte, quando todo mundo sabia que ela foi sequestrada e assassinada na prisão sob responsabilidade do governo.

 

Existem muitos exemplos dos "métodos de justiça" usados pela República Islâmica.

 

Eu quero elevar o alerta sobre o fato de que nós tememos que o regime islâmico pretenda executar Sakineh imediatamente.

 

Nós enviamos anexados a esta carta todos os documentos que provam que o caso do Sakineh foi revisado pelas cortes do Azerbaijão e ela não foi culpada pela morte de seu marido.

 

Em nome dos filhos de Sakineh, eu apelo para que uma delegação seja enviada ao Irã para investigar apropriadamente todas essas alegações e revisar imediatamente o caso de Sakineh.

 

Senhor Ban Ki-Moon! O caso de Sakineh é apenas um exemplo das centenas de injustiças que estão acontecendo no Irã.

 

Hoje, há 170 pessoas condenadas à morte na prisão de Tabriz. Quatro deles são mulheres condenadas à morte por apedrejamento. Há dezenas de homossexuais presos em Tabriz. Entre eles, há um garoto de 15 anos também condenado à morte. Seu crime é ser gay. Ele divide a cela com homens adultos que são criminosos, e nos escreveu pedindo ajuda. Essas atrocidades ocorrem diariamente no Irã. Há uma necessidade urgente de uma ação global.

 

De acordo com nossas fontes no Irã, todas essas pessoas estão em grande perigo. Mais uma vez, eu peço que você aja imediatamente para salvar a vida de Sakineh e de todas as outras vítimas do regime islâmico.

 

Cordialmente,

 

Mina Ahadi

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