Oposição ganha espaço e Gaddafi promete resistir na Líbia

O líder líbio Muammar Gaddafi prometeu na sexta-feira "esmagar qualquer inimigo", mas a rebelião popular contra o seu regime o deixa cada vez mais acuado em Trípoli.

AHMED JADALLAH E MARIA GOLOVNINA, REUTERS

25 de fevereiro de 2011 | 18h48

"Vamos lutar se eles quiserem", disse Gaddafi, de 68 anos, um dia depois de confrontos disseminados na capital entre as suas forças de segurança e multidões rebeldes.

A oposição diz que alguns bairros de Trípoli já estão sob seu controle, a exemplo do que acontece com várias outras cidades do país e com importantes poços petrolíferos.

Testemunhas disseram que os grupos de oposição montaram barricadas improvisadas para conter o avanço das tropas do governo na cidade de Zawiyah, a leste da capital.

"Preparem-se para lutar pela Líbia, preparem-se para lutar por dignidade, preparem-se para lutar por petróleo", disse Gaddafi a milhares de seguidores na praça Verde, no centro de Trípoli, ameaçando abrir seus arsenais militares para quem estiver ao lado do governo.

"Podemos esmagar qualquer inimigo. Podemos esmagá-los com a vontade do povo", afirmou Gaddafi, gritando de punhos cerrados.

Moradores disseram que o poder de Gaddafi aparentemente se restringe a alguns bairros da capital.

"Acho que Trípoli está se rebelando", disse um homem no centro da cidade. "Quando você vai à praça Verde a encontra cheia de seguidores de Gaddafi. Em outras áreas, (os oposicionistas) saíram após as preces de sexta-feira e estão se manifestando contra Gaddafi."

Um tripolitano disse em e-mail à Reuters, pedindo anonimato, que as forças governistas começaram a abrir fogo contra centenas de pessoas no bairro de Janzour, na zona oeste da capital, num protesto iniciado após as preces de sexta-feira.

A TV Al Jazeera disse que duas pessoas foram mortas e várias ficaram feridas pelas forças de segurança em confrontos em vários bairros. Outro canal, o Al Arabiya, disse que sete pessoas morreram.

Os rebeldes controlam algumas estradas que dão acesso à capital, permitindo que moradores de localidades próximas cheguem à capital, segundo um líbio que está na Europa e fez o relato após manter contato com parentes em Trípoli.

"Eles vão tentar marchar até o palácio de Gaddafi. Acho que pode ser um cenário Ceausescu", disse essa fonte, referindo-se ao ditador romeno Nicolae Ceausescu, executado junto com sua esposa pelo Exército depois de um julgamento sumário em dezembro de 1989.

Um ex-aliado de Gaddafi disse que ele vai cair "como Hitler" na Segunda Guerra Mundial, sem se render.

A alta comissária da Organização das Nações Unidas (ONU) para Direitos Humanos, Navi Pillay, disse que "milhares" de pessoas podem ter sido mortas na rebelião iniciada na semana passada. Ela propôs uma intervenção internacional para proteger os civis.

Os Estados Unidos, depois de retirarem seus cidadãos da Líbia, anunciou a desativação da sua embaixada em Trípoli e a intenção de impor sanções a Gaddafi.

CONTROLE REBELDE

Há relatos também de que Misurata, terceira maior cidade do país, 200 quilômetros a leste de Trípoli, teria caído em mãos dos rebeldes.

Mas Saif al-Islam, filho de Gaddafi, disse que o governo controla o oeste, o sul e o centro do país, e que sua família não tem intenção de partir.

"Temos planos A, B e C. O plano A é viver e morrer na Líbia; o plano B é viver e morrer na Líbia; o plano C é viver e morrer na Líbia", disse ele à TV CNN Turk, da Turquia.

O Programa Mundial de Alimentos da ONU disse que relatos vindos de pessoas que estão fugindo da violência indicam que há escassez de comida, combustível e suprimentos médicos, agravados pelo fechamento dos portos.

Em outro sinal de desmoronamento do governo, o procurador-geral Abdul-Rahman al-Abbar renunciou, seguindo o exemplo de outros membros do regime, e disse à TV Al Arabiya que aderiu à oposição. As delegações do país junto à Liga Árabe e à ONU em Genebra também mudaram de lado.

Na primeira iniciativa concreta para tentar obter o apoio dos 6 milhões de líbios contra a rebelião iniciada na semana passada, o governo anunciou pela TV estatal um aumento de salários e de subsídios alimentares, e um bônus especial para todas as famílias.

As quatro décadas de ditadura eliminaram qualquer tipo de oposição organizada ou de estrutura política que rivalize com Gaddafi. Mesmo assim, comitês populares foram formados para gerir as cidades rebeldes, com a participação de advogados, médicos, anciãos tribais e oficiais militares. Aparentemente, não há presença de radicais islâmicos nesses comitês.

Em Benghazi, segunda maior cidade líbia e berço da revolta --inspirada nas recentes revoluções da Tunísia e Egito--, a chamada "Coalizão 17 de fevereiro" está limpando as ruas, distribuindo alimentos, construindo defesas, dando garantias a empresas petrolíferas estrangeiras e dizendo que acredita em uma Líbia unida.

Na cidade de Adjabiya, no leste, policiais e militares disseram à TV Al Jazeera que também abandonaram seus quartéis e aderiram à oposição. Um homem que esteve na região das Montanhas Ocidentais, cerca de 150 quilômetros a sudoeste de Trípoli, disse que três localidades também não estão mais sob controle do poder central.

PETRÓLEO

A Líbia fornece 2 por cento do petróleo mundial, a maior parte do qual oriundo de poços e terminais no leste do país. Abdessalam Najib, engenheiro da petrolífera líbia Agico e integrante do governo provisório de Benghazi, afirmou que os rebeldes controlam praticamente todos os campos petrolíferos a leste do importante terminal de Ras Lanuf.

Mas fontes do setor disseram à Reuters que os embarques de petróleo bruto na Líbia --12o maior exportador mundial-- praticamente pararam devido à redução da produção, à falta de funcionários nos portos e a questões de segurança. Uma fonte em Ras Lanuf disse que as operações lá pararam.

Um repórter da Reuters viu outro terminal importante, Marsa el Brega, sendo controlado pelos rebeldes, sob a proteção de soldados.

O petróleo do tipo Brent no mercado futuro opera na sexta-feira em estabilidade, em torno de 111 dólares. Na quinta-feira, o valor chegou a quase 120 dólares, mas caiu depois da a Arábia Saudita assegurar que iria compensar eventuais interrupções na produção líbia.

(Reportagem adicional de Alexander Dziadosz, Tom Pfeiffer e Mohammed Abbas, no leste da Líbia; de Ali Abdelatti, no Cairo; de Amena Bakr, em Riad; de Michael Georgy, na fronteira com a Tunísia; e de Stephanie Nebehay e Robert Evans, em Genebra)

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