'Os iraquianos perderam sua identidade'

Para iraquiano que vive em São Paulo, promessa dos EUA não foi cumprida e crianças são as mais prejudicadas

Daiene Cardoso, do estadao.com.br

16 de outubro de 2007 | 17h17

Khalid Tailche, 40 anos, foi um dos milhares de soldados do Exército de Saddam Hussein. Vivendo há mais de 10 anos no Brasil, o professor de inglês e árabe assiste não só à destruição de seu país, mas da identidade do povo iraquiano. "O cidadão iraquiano hoje não sabe quem está lutando realmente por um Iraque democrático, pela libertação do país, ou quem está lutando por seu interesse ou por um interesse por trás dele", conta. Nascido na cidade de Mossul, a 400 km de Bagdá, Khalid serviu durante um ano e meio ao Exército iraquiano, na mesma época da primeira Guerra do Golfo. Khalid trabalhava na área de engenharia do Exército e, embora nunca tenha atuado na linha de frente do conflito, conhece bem as conseqüências da guerra e as promessas que nunca foram cumpridas pelos americanos. "Será que isso é democracia?", questiona.  Em entrevista ao estadao.com.br, Khalid fala das conseqüências da ocupação para a população, das marcas da guerra para as futuras gerações e os interesses em conflito no Iraque.  O regime de Saddam e a ocupação americana Embora não defenda o regime de Saddam Hussein, Khalid lembra da força política do ex-ditador e da estabilidade do país. "Isso é uma coisa polêmica, tem gente que apóia o Saddam, que acredita que ele estabilizava o país. Por outro lado a gente não tinha liberdade, isso realmente era um ponto negativo. Antigamente era um regime militar, agora temos o que eles (os americanos) chamam de liberdade ou democracia americana. A situação hoje está bem pior. A gente pode falar, mas não tem direito de viver. Será que isso é democracia?" Khalid questiona a condução da guerra e a falta de planejamento após a invasão. "Quando a gente quer uma mudança, essa mudança tem que ser tranqüila, bem estudada, não se pode fazer uma mudança para pior. Qual é a idéia de democracia? É dar aos povos a chance de viver melhor. Hoje em dia no Iraque se pode dizer o que quiser, mas se pode morrer a qualquer momento.Quando não há segurança, não há democracia." Para o iraquiano, não dá para lamentar a queda de Saddam, mas também não é possível aceitar a ocupação americana. "O que me importa é que a população viva uma vida digna, onde consegue sobreviver. Depois vem a questão política. Uma coisa que tenho certeza é que a bandeira de democracia que os EUA levantam não faz deles forças legítimas para invadir o Iraque. Eles entraram com essa bandeira, mas realmente o resultado já fala tudo", diz. "Depois de quatro anos de invasão, as promessas americanas caíram uma atrás da outra. Acho que os próprios americanos começaram a entender que isso foi um grande erro, que teve um efeito negativo tanto para o Iraque quanto para os EUA", completa. Por trás das bombas Khalid é cristão, minoria religiosa no Iraque, mas afirma que a convivência sempre foi pacífica. "O povo iraquiano sempre foi um povo de várias religiões. Nunca tivemos problemas. Claro que tem diferenças, mas sempre foram respeitadas. A convivência se deu ao longo da história. Eu tenho amigos de todas as regiões, sunitas, xiitas, cristãos. Todos são amigos. O que acontece agora é uma conspiração para destruir o país", conta. Para o iraquiano, interesses divergentes aproveitam a fragilidade do país para se impor. "São interesses internacionais, são vários países que se envolvem na região e cada um procura seu espaço. Infelizmente o mal planejamento da invasão acabou fazendo do Iraque uma terra aberta a todos os tipos de conflito. É uma chance única de controlar e fazer parte do sistema político iraquiano para negociar depois e ter mais poder na região", analisa. O professor iraquiano nega que haja uma resistência civil iraquiana. "Isso é mais uma coisa triste porque no meio dessa confusão, a resistência honesta iraquiana pela liberdade do país perdeu sua identidade. O cidadão iraquiano hoje não sabe quem está lutando realmente por um Iraque democrático, pela libertação do país, ou quem está lutando por seu interesse ou por um interesse por trás dele. São várias forças em conflito e, no meio dessa confusão, quem sai prejudicado é o cidadão."  O cotidiano dos civis  Khalid, que mantém contato semanal com sua família em Mossul, conta que a situação dos iraquianos piora a cada dia. "Além do nível da violência, a situação é grave em todas as áreas. A água está contaminada, não há postos de saúde e faltam médicos. Tudo está em estado de guerra. Tem energia elétrica por duas ou três horas, não se sabe quando a energia vem. Aliás, os problemas começaram com o embargo após a guerra do Kuwait. Quando foi aplicado o embargo, já houve prejuízo para a população ", afirma.  Mesmo sendo um dos maiores produtores de petróleo do mundo, os próprios iraquianos enfrentam escassez de combustível. "O cidadão iraquiano não tem como abastecer o carro. O preço aumentou bastante, o petróleo está sendo exportando, há muita dificuldade de abastecimento. No passado, para encher o tanque se pagava o preço de uma garrafa de água mineral, era muito barato. O cidadão acabou sendo muito prejudicado desde a ocupação. Não em defesa do antigo regime, ninguém vai defender um regime militar, mas por esse aspecto a população tinha vantagem."  Segundo Khalid, os iraquianos vivem num regime de medo, como viviam antes, mas agora sem nenhuma perspectiva de vida. "Não temos esperança de nada."   A insegurança Para Khalid, a falta de segurança é pior que os problemas estruturais que o país enfrenta. "Você sai de casa sem saber se volta ou não. Meu primo, um jovem de 15 anos, foi seqüestrado há um mês. O problema mais grave disso tudo é a falta de segurança. Quando você não tem eletricidade e água, você consegue sobreviver, agora quando não tem segurança, não tem como andar na rua. Isso vai paralisar a cidade. Tanto em Mossul como em Bagdá, a segurança é um caos total. Você sai e não sabe o que vai acontecer. São carros-bomba, você não sabe de onde vem o tiro. Os civis têm medo, não querem andar perto dos soldados americanos, há todos os tipos de forças armadas nas ruas. O governo está tentando acabar com as milícias, mas isso não é uma tarefa fácil." O futuro Para o professor iraquiano, a violência do dia-a-dia marcará a futura geração de iraquianos. "Essa nova geração está crescendo, indo para a escola numa situação dessa. Violência é o assunto de todos os dias. A própria professora está aterrorizada. Eles andam na rua e convivem com todos os tipos de violência. Essa geração será afetada sim, existe um efeito psicológico muito grande", prevê. Além das conseqüências imateriais da guerra, Khalid lembra a perda do patrimônio cultural do Iraque. "Vários sítios arqueológicos estão sendo saqueados todos os dias. É uma destruição não só para os novos iraquianos, mas para a história do mundo. E quem tem interesse nisso? A gente às vezes pensa que é só um plano para destruir o país. Agora é a história do país também", desabafa. Khalid acredita na reconstrução do Iraque, mas lembra que os "cérebros" iraquianos, indispensáveis na reestruturação iraquiana, estão deixando o país. "Vários cientistas estão fora do Iraque, isso não é de se surpreender. Estamos numa situação que ninguém consegue trabalhar. Tem gente que não quer ver o Iraque crescer como crescia antes. As pessoas estão resolvendo sair. Hoje, só na Síria, temos quase 2 milhões de iraquianos, ao ponto da Síria fechar as fronteiras. Veja a situação dos iraquianos: não consegue ficar no país nem sair", conta.  No entanto, Khalid afirma que o ponto primordial da reconstrução é garantir segurança aos cidadão. "Acho que para reconstruir o país precisamos primeiro de segurança. Sem segurança, não dá pra fazer nada.Para haver segurança é preciso tempo. E quem vai pagar isso? A população vai pagar pela destruição causada pela invasão. O que temos com isso?" Mesmo que o país um dia se recupere, Khalid não acredita que os iraquianos serão os mesmos. "Tenho orgulho do meu país. Mesmo com essa situação, acho que a população é vítima, como sempre foi. Isso que a gente vê não é o iraquiano, não é a cara da população, nosso povo não é violento. Não acredito que isso vá durar para sempre, mas o Iraque não será mais o mesmo. Depois de todos os problemas que passamos, hoje em dia o Iraque é um espaço de conflito, tanto de poder quanto de interesse. É triste viver nessa situação. Espero que isso tudo acabe, que o Iraque se restabeleça e quem sabe, a gente possa voltar a ver o país com alegria", finaliza.

Tudo o que sabemos sobre:
iraquetailche

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.