Palestinos estão pessimistas com promessas de reconstrução da Faixa de Gaza

A primeira chuva torrencial de um inverno iminente já deixou a Faixa de Gaza encharcada, agravando a miséria de milhares de palestinos que se mobilizam para reparar as casas danificadas pela guerra com Israel durante o verão.

NIDAL AL-MUGHRABI E NOAH BROWNING, REUTERS

21 de outubro de 2014 | 13h24

Enquanto autoridades palestinas comemoram os 5,4 bilhões de dólares prometidos em uma conferência internacional de ajuda humanitária para reconstrução e recuperação orçamentária dos territórios palestinos, muitos em Gaza temem que, assim como em guerras passadas contra Israel, nem todo esse dinheiro se materialize.

Ninguém contesta a urgência da necessidade. A ONU diz que 18 mil residências ficaram destruídas ou danificadas nos 50 dias de conflito entre Israel e militantes palestinos, e 108 mil pessoas ficaram desabrigadas no território isolado e empobrecido.

O fluxo de materiais de construção e outros tipos de ajuda vai em grande medida depender se a Autoridade Palestina (AP), que exerce o controle limitado sobre a Cisjordânia ocupada por Israel, vai conseguir expandir seu domínio sobre a Faixa de Gaza, hoje controlada pelo grupo islamista Hamas, rejeitado por muitos países como sendo um grupo terrorista.

Mas apesar de um acordo de unidade palestina estipulado em abril, o Hamas e seus rivais políticos ainda se estranham. Homens de negócios locais dizem que um mecanismo acordado entre ONU, israelenses e palestinos para o transporte de materiais de construção da Cisjordânia para Gaza por meio do território de Israel ainda permanece vago e com burocracia excessiva.

Qualquer ajuda já virá tarde demais para Samir Hassanein, de 37 anos. Um buraco em sua casa danificada deixa a sala de estar exposta, apesar da tentativa desesperada de cobrir a falha com lonas de plástico e tijolos.

A vizinhança de Hassanein, Shejaia, foi bombardeada pela artilharia israelense em 20 de julho. Por quase de dois meses, Hassanein e sua família resistem em ficar; ele está ansioso em não se afastar e perder a passagem de delegações da ONU e organizações de caridade para registrarem sua casa em fundos de reparos que ainda não existem.

"Eles devem construir nossas casas para nós --não podemos viver assim. Eles deveriam ter começado a construir há muito tempo. Não estamos preparados para o inverno e agora estamos nos afogando na chuva", disse ele à Reuters.

Israel bombardeou fortemente e invadiu parcialmente a Faixa de Gaza, um pequeno enclave com 1,8 milhão de habitantes, enquanto o Hamas lançava foguetes contra cidades israelenses durante as sete semanas de confrontos. O conflito deixou mais de 2 mil palestinos, a maioria civis, e mais de 70 israelenses, quase todos soldados.

UNIÃO CONTURBADA

Desde a conferência sobre ajuda humanitária foi encerrada em 12 de outubro no Cairo, apenas 75 caminhões carregados com materiais de construção entraram em Gaza através de Israel --um por dia na semana passada.

O analista econômico de Gaza Maher Al-Tabbaa disse que o montante fica abaixo de um quinto do volume necessário para que os danos provocados pela guerra sejam reparados dentro de três a cinco anos.

Apesar da formação de um governo de unidade palestino pelas mãos de tecnocratas em junho, uma insistente desconfiança entre o Hamas e o partido moderado Fatah na Cisjordânia tem lançado dúvidas sobre o aumento do fluxo dos materiais.

Um acordo fechado no mês passado para que o Hamas entregue o controle de postos de fronteira aos rivais palestinos apoiados pelo Ocidente pode aliviar os temores de Israel e doadores de que o grupo possa desviar os fundos ou lucrar com os esforços de reconstrução.

Autoridades palestinas estimam o custo da reconstrução física em 4 bilhões de dólares. Mas os doadores aportaram apenas cerca de 2,7 bilhões de dólares para esse objetivo, alocando a outra metade dos recursos prometidos no saneamento do orçamento da Autoridade Palestina.

(Reportagem adicional de Ali Sawafta)

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