Paquistão entregou centrífugas à Coréia do Norte, diz cientista

Equipamento foi enviado durante governo de Pervez Musharraf, diz ex-chefe do programa nuclear paquistanês

Agência Estado e Associated Press,

04 de julho de 2008 | 15h12

A Coréia do Norte recebeu um carregamento de centrífugas do Paquistão em 2000, supervisionado pelo exército, durante o governo do presidente paquistanês Pervez Musharraf, informou nesta sexta-feira, 4, o cientista nuclear paquistanês Abdul Qadeer Khan, que caiu em desgraça. Khan chefiou o programa nuclear paquistanês por vários anos e é considerado o "pai" da bomba atômica do Paquistão.   Veja também: EUA vão retirar Coréia do Norte do 'Eixo do mal', diz Bush Cronologia do programa nuclear da Coréia do Norte   Khan contou à agência de notícias Associated Press, em entrevista por telefone, que as centrífugas, equipamento usado para enriquecer urânio, foram levadas de avião do Paquistão à Coréia do Norte. O avião foi carregado sob supervisão de autoridades paquistanesas.   As declarações de Kahn contradizem sua confissão de 2004, quando ele assumiu sozinho a responsabilidade por fornecer tecnologia nuclear ao Irã, à Coréia do Norte e à Líbia. Elas também contradizem as freqüentes negações de funcionários civis e militares do Paquistão, de que ninguém em Islamabad conhecia as atividades de proliferação nuclear de Khan.   Khan disse que o Exército do Paquistão tinha "conhecimento total," do carregamento de centrífugas P-1 à Coréia do Norte, e que a entrega dos materiais foi feita com o consentimento do presidente Musharraf, que na época governava o Paquistão como ditador militar. Musharraf conquistou o poder em um golpe militar em 1999.   "Foi um avião norte-coreano (que levou as centrífugas), e o exército tinha conhecimento total sobre isso e sobre o equipamento," disse Khan. "Só pode ter ido com o consentimento (de Musharraf)," disse Khan.   As declarações de Khan, reportadas mais cedo nesta sexta-feira pela agência de notícias Kyodo do Japão, são constrangedoras para o Exército do Paquistão e para Musharraf, um aliado chave dos Estados Unidos na guerra contra o terror.   O Exército do Paquistão e o porta-voz do Ministério do Exterior não quiseram fazer comentários sobre as declarações de Khan. O porta-voz de Musharraf disse que o atual presidente paquistanês responderá as declarações de Khan após tomar conhecimento.   Khan é considerado um herói por muitos no Paquistão, por seu importante papel no programa nuclear paquistanês, que produziu a primeira bomba nuclear de um país islâmico, em 1998 - algo visto como essencial para garantir a segurança do país contra a arqui-rival Índia, que tem armamentos nucleares desde a década de 1970.   Após sua confissão de 2004 e um pedido público de desculpas na televisão paquistanesa, Khan foi perdoado por Musharraf e colocado em uma prisão domiciliar numa luxuosa mansão perto de Islamabad. Mas desde que um novo governo civil voltou ao poder no Paquistão, após as eleições de fevereiro, o aposentado cientista arrependido está cada vez mais falante à imprensa.   'Persuadido'   Questionado sobre os motivos de ter assumido sozinho a responsabilidade de ter passado segredos nucleares a outros países, Khan afirma que foi persuadido por políticos paquistaneses que isso seria feito no interesse nacional do Paquistão. Entre esses políticos amigos ele citou Chaudhry Shujaat Hussain, uma figura chave que na época comandava o partido de Musharraf.   Khan disse que em troca o governo paquistanês lhe ofereceu liberdade completa, mas "as promessas não foram honradas". Ele também afirma que viajou à Coréia do Norte em 1999 com um general paquistanês para comprar mísseis do regime de Pyongyang.   A esposa de Khan, nesta semana, entrou com um pedido na Suprema Corte de Justiça do Paquistão, para que seu marido tenha liberdade de ir e vir e possa falar à imprensa.Nesta sexta, o advogado de Khan disse que os telefones da mansão do seu cliente foram grampeados e que a residência está repleta de escutas.

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