Para Assad, plano dos EUA enfraquece um inimigo e ajuda outros

Ao atacar o Estado Islâmico na Síria, os Estados Unidos estarão enfraquecendo um dos grandes inimigos de Bashar al-Assad. Mas a nova estratégia dos EUA pode ainda aborrecer Assad ao ajudar outros oponentes que também estão determinados a derrubá-lo.

TOM PERRY E ALEXANDER DZIADOSZ, REUTERS

11 de setembro de 2014 | 18h12

A estratégia norte-americana para enfraquecer o Estado Islâmico na Síria não deve produzir resultados rápidos. Diferentemente do Iraque, onde os ataques aéreos dos EUA rapidamente reduziram avanços do Estado Islâmico, Washington não tem parceiros fortes que possam atuar por terra.

Mas em uma guerra que já dura mais de três anos e que matou mais de 190 mil pessoas, o plano dos norte-americanos parece estar direcionado a trazer com ele o mais sério esforço até agora para impulsionar o que resta da fragmentada oposição "moderada" a Assad.

Pode ser que demore bastante tempo até que os guerrilheiros rebeldes denominados de "Exército Livre da Síria" possam ser transformados em qualquer coisa que se aproxime de uma força militar. Tanto os aliados quanto os oponentes de Assad concordam que não pode haver uma solução militar para uma guerra que precisa de uma decisão política.

Mas o aumento do apoio - incluindo os treinamentos que a Arábia Saudita concordou em receber - poderá ao menos garantir uma sobrevida aos rebeldes que corriam o risco de serem varridos do mapa por Assad e pelo Estado Islâmico.

Eventualmente, uma oposição unificada e mais capacitada a segurar seus territórios poderia criar um novo momento para negociações diplomáticas suspensas entre o Ocidente e os principais aliados de Assad, Rússia e Irã, que também estão em alerta com a ascensão do Estado Islâmico.

O presidente norte-americano, Barack Obama, em um importante discurso de confronto ao Estado Islâmico, disse na quarta-feira que não hesitará em atacar o grupo na Síria, onde ele já dominou porções de território no leste e no nordeste do país.

Obama também descartou a ideia de cooperação com o governo da Síria, o que era apontado por alguns analistas como um eventual resultado da luta contra o Estado Islâmico. Alguns ainda acreditam que a cooperação indireta através de terceiros ainda pode ser possível.

"O regime de Assad e os iranianos são os vizinhos naturais a isso no leste e no oeste, mas ele (Assad) não conseguirá negociar com o Ocidente como ele achou que conseguiria", disse Andrew Tabler, um pesquisador do Washington Institute e especialista sobre a Síria.

"Os Estados Unidos decidiram que esta será uma guerra muito longa, e que eles irão apoiar a oposição".

GRUPOS REBELDES

Obama disse que os Estados Unidos já haviam enviado assistência militar à oposição síria - uma possível referência a ajuda entregue através de um programa ostensivo e secreto de treinamento conduzido pela CIA. Ele também pediu que o Congresso aprovasse recursos adicionais de 500 milhões de dólares para ajudar a oposição.

Os grupos rebeldes que devem ser apoiados pelos EUA dizem que já começaram a se reorganizar. Um deles, o Movimento Hazem, reportou ter recebido novos fornecimentos de mísseis antitanques nas últimas semanas.

Ativistas de oposição dizem que dezenas de milhares de combatentes se juntaram a grupos rebeldes desde o início da revolta.

Mas os próprios rebeldes dizem que muitos continuam abandonando grupos de oposição moderada para se juntarem a grupos islâmicos com mais fundos, incluindo não só o Estado ISlâmico, mas também a Frente Nusra, aliada da al Qaeda.

Críticos dos planos de armar rebeldes se preocupam com a possibilidade de as armas acabarem nas mãos de radicais.

Qualquer tentativa de ajudar as forças militares da oposição moderada também enfrentará o ceticismo dos ativistas de oposição que culpam a falta de apoio do Ocidente pelo fracasso do seu levante. Embora alguns já tenham lutado contra o Estado Islâmico, eles dizem que o principal inimigo é Assad e que Washington fez muito pouco até agora para ajudá-los.

(Reportagem adicional de Laila Bassam)

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