Parlamentar iraniano acusa Ocidente de 'terrorismo de estado'

Em entrevista ao 'Estado', Ali Larijani diz que Brasil e Irã tem 'os mesmo inimigos no mundo' e prega aproximação

Entrevista com

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo ,

20 de outubro de 2009 | 18h50

O Irã acusa o Ocidente de promover um "terrorismo de estado" e alerta que as potências européias e os Estados Unidos não devem se surpreender se um número maior de grupos como o Hamas e o Hezbollah surgirem em resposta a essas políticas. Em entrevista ao Estado, o presidente do Parlamento iraniano, Ali Larijani, insistiu que tem provas que os atentados cometidos contra líderes dos Guardiões da Revolução no fim de semana tem "a mão estrangeira".

 

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Larijani, um dos homens de confiança do regime de Teerã, defendeu a atuação do Hamas e do Hezbollah. "É injusto chama-los de grupos terroristas", disse. Larijani também defendeu uma aproximação política entre o Brasil e o Irã e repetiu o que vem dizendo nos últimos dias. "Irã e Brasil tem os mesmos inimigos no mundo". Em um mês, o polêmico presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, fará uma visita ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília. Eis os principais trechos da entrevista:

 

Estado - Dois dias após os atentados no Irã que mataram membros dos Guardiões da Revolução, o que tem sido o resultado das investigações?

Larijani - Um dos líderes do movimento que cometeu o atentado já disse no passado que ele tinha ligações com os Estados Unidos. Nossa própria informação atestou isso. O que eu alerto é que ações como essa tem impacto na segurança regional e mundial.

 

Estado - Mas quais provas o sr. tem de que existe uma ligação de potências estrangeiras?

Larijani - A pior forma de terrorismo é o terrorismo de Estado e isso tem crescido nos últimos anos. O Irã tem sido alvo desse terrorismo há 30 anos. Muitos dos terroristas desses grupos, como o do fim de semana, estão exilados na Europa, em especial na França.

 

Estado - O Ocidente derrubou o Talebã também alegando que lutava contra o terrorismo. Isso teria sido legítimo?

Larijani - O terrorismo é uma instrumento para ações políticas na mãos das grandes potências. Nos bastidores, o que vemos é que o Ocidente e a OTAN começam a negociar com terroristas diante do fato de que não podem lidar com eles.

 

Estado - Mas o Ocidente acusa o seu governo de financiar terroristas e grupos como o Hamas e Hezbollah?

Larijani - Seria muito injusto chamar esses governos de terroristas. O Hezbollah vem defendendo o interesse direto do povo libanês, que ninguém vem fazendo. Trata-se de um grupo de resistência, com ações honráveis. A realidade é que se o Ocidente continuar com sua política, deve esperar pela criação e o fortalecimento de grupos como esse. Atos que o Ocidente chama de terrorismo são acima de tudo reações a pressões que povos vem sofrendo por décadas por parte de países mais poderosos. A tentativa de chamar o Hamas de um grupo terrorista é uma forma de esconder os crimes cometidos por Israel.

 

Estado - O que o sr. espera da viagem de Ahmadinejad ao Brasil no final de novembro.

Larijani - O que queremos é uma aproximação em todos os níveis com o Brasil. Comercialmente, há muito o que ser explorado. Todos podem ganhar. Na área de ciências, o intercâmbio pode ser fundamental nas altas tecnologias. Mas é na área política que a cooperação pode ser mais intensa. Os dois países querem o mesmo do sistema multilateral: justiça. Temos inimigos comuns e isso nos aproxima.

 

Estado - O Irã está disposto a abandonar seu programa nuclear.

Larijani - Não quero entrar em detalhes. Mas apenas posso dizer que o direito de desenvolver tecnologia nuclear é de todos.

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