Parlamentares dos EUA questionam estratégia para Afeganistão

Republicanos elogiaram envio de mais 30 mil soldados, mas são contrários à retirada de tropas após 18 meses

Gustavo Chacra, Correspondente

02 de dezembro de 2009 | 19h41

A estratégia para o Afeganistão do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciada na noite de terça-feira, 1.º, foi duramente questionada por parlamentares durante audiência do secretário da Defesa, Robert Gates, da secretária de Estado, Hillary Clinton, e do comandante militar, Mike Mullen, no Senado. Republicanos elogiaram a decisão de enviar 30 mil soldados, mas criticaram a determinação de uma data limite de 18 meses para iniciar a retirada. No lado democrata, alguns demonstraram contrariedade com a mobilização e outros estão céticos com a cooperação do presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, visto como corrupto.

 

O senador republicano e candidato derrotado nas eleições presidenciais do ano passado, John McCain, afirmou que não há lógica em enviar e ordenar a retirada rapidamente dos soldados, apesar de concordar com o envio de mais tropas. Em resposta, Gates disse que será feita uma "reavaliação em dezembro de 2010" para determinar se os soldados começarão a ser removidos a partir de meados de 2011. "Mas então não faz sentido anunciar uma data. Isso dá uma impressão errada para os nossos amigos e também para os nossos inimigos", retrucou o senador, considerado uma das principais vozes em política externa do Senado americano. Segundo McCain, "o sucesso é a real estratégia para a retirada, quando as condições tiverem mudado definitivamente para melhor. Assim, as tropas podem retornar com honras para a casa".

 

Hillary, que seguirá para a Bélgica em busca de convencer outros países da OTAN a enviar mais tropas, reagiu e disse que o objetivo de determinar uma data para a saída é "mostrar claramente que os EUA não estão interessados em ocupar o Afeganistão ou trabalhar na construção do país". O foco, de acordo com ela e também segundo Gates, é derrotar a Al Qaeda e o Taleban.

 

Mesmo dentro do partido do presidente, há críticas. Para o senador democrata Carl Levin, tido como um especialista em questões militares, é arriscado enviar tantas tropas neste momento sem o número suficiente de forças de segurança no lado afegão para atuarem como parceiros - um dos objetivos principais da estratégia de Obama será justamente treinar soldados e policiais do Afeganistão para que eles se tornem capazes para lidar com o Taleban no futuro. Paul Kirk, também do Partido Democrata, disse que a estratégia falha ao depender de Karzai, acusado de fraudar as eleições presidenciais afegãs neste ano para se reeleger, além de "presidir sobre uma cultura de corrupção, dependente do ópio". Hillary defendeu o presidente afegão na sua resposta. Gates acrescentou que os ministro da Defesa e do Interior do Afeganistão são "competentes e capazes" e que existem muitos "governadores bons" em Províncias do país.

 

O presidente americano demorou cerca de três meses para definir a sua estratégia para o Afeganistão. Diferentemente do conflito no Iraque, ele considerava, desde a sua campanha, a guerra afegã uma prioridade. O problema era conciliar isso com as pessoas que o apoiavam e também a pressão republicana. Além disso, havia divergências dentro de seu governo. O vice-presidente Joe Biden sempre se mostrou contrário à elevação do contingente para quase 100 mil soldados. Em entrevista a uma rede de TV americana nesta terça, o número dois da Casa Branca afirmou que concordou com a estratégia apenas depois de o presidente definir uma data para sair. Karl Eikenberry, embaixador dos EUA em Cabul, não confia em Karzai e acha arriscado o envio de tropas sem um parceiro forte no lado afegão. Os principal defensor do envio é o secretário da Defesa. Já Hillary, segundo analistas, é quem banca Karzai no governo.

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