Polícia do Irã fecha cerco a jovens

Para fugir da caçada aos que violam leis de costumes, adolescentes promovem baladas dentro de casa

Adriana Carranca, do Estadão,

02 de setembro de 2007 | 23h09

verno iraniano lançou em julho uma nova ofensiva sobre os jovens, que representam 70% da população. Homens basidji (guardiães da moral) e policiais prometem percorrer as ruas, parques e shoppings mais movimentados de Teerã, a capital iraniana, em busca de sinais de costumes liberais considerados "antiislâmicos".   Teerã aperta cerco contra imprensa'O Ocidente deveria atrair o Irã'Um olhar feminino sobre o Irã   Isso inclui motoristas ouvindo música muito alta, casais trocando beijos em público, mulheres usando o hijab, o véu islâmico, de forma a aparecer as madeixas, com roupas minimamente ousadas, muito maquiadas ou de unhas pintadas com cores fortes.   Os garotos também não devem escapar. A polícia promete prender aqueles que molestarem as meninas com cantadas. Aqueles vestidos de forma muito "ocidental" - com coisas como tênis da marca Nike ou camisetas de mangas curtas muito justas e coloridas, ou com cortes de cabelo diferentes - também devem ser abordados pelos oficiais.   A ofensiva faz parte de um plano de "segurança pública" que inclui também o combate às drogas e suas diretrizes foram anunciadas no dia 19, após uma reunião entre autoridades da polícia e do Judiciário.   Desde março, a polícia vem alertando os jovens que se encaixam no perfil citado acima. Segundo declarações do chefe da polícia iraniana, Ismail Ahmadi Moghaddam, à imprensa local, 150 mil pessoas foram abordadas e levadas às delegacias desde então.   A estudante de direito Mahsa, de 22 anos, conta ter sido abordada por um policial dentro de um ônibus. "Ele me pediu o documento e mandou que eu fosse à delegacia no dia seguinte. Eu lhe dei o documento, mas nunca fui à polícia. Não acredito que eles tomem alguma ação. O que querem é assustar a gente. E eu não tenho medo", diz a estudante, que pretende trabalhar com a defesa dos direitos das mulheres, depois de formada. "Essa situação não pode continuar assim, tem de mudar." A situação a que se refere é o retrocesso aos tempos da Revolução Islâmica, quando os clérigos assumiram o poder, em 1979, com um governo baseado em tradição religiosa e idéias antiocidentais.   Os aiatolás impuseram um rígido código de conduta nas ruas, flexibilizado no governo do antecessor do presidente Mahmud Ahmadinejad, Mohammad Khatami (1997-2005), que conseguiu introduzir algumas poucas reformas liberais, mas não a ponto de conseguir abolir o véu, o blusão comprido cobrindo até a metade das pernas e as calças obrigatórias para mulheres e homens. O processo retrocedeu de novo sob o regime de Ahmadinejad, apoiado pelos basidjis e aiatolás.   Enquanto falavam com a reportagem do Estado, Mahsa e outras três amigas, Miad, Asal e Ania, também estudantes de direito, apressaram-se em ajeitar os véus coloridos de forma que lhes cobrissem melhor os cabelos compridos, ao verem três policiais se aproximarem. Elas estavam simplesmente sentadas num banco do Parque Melat tomando sorvete, mas não passaram despercebidas aos olhos dos policiais.   "Para onde estão indo? Podemos ir junto?", disse às meninas um garoto que passou de carro na frente do parque. "Se chamarmos um policial e dissermos a ele o que esse garoto nos falou, ele pode ir preso", conta uma delas. "No Irã há muita liberdade. Passamos três dias estudando, e outros três nos divertindo", diz Miad. "Não deixamos de fazer nada do que queremos, depende da escolha de cada um. Só que, depois dessa investida da polícia, as coisas estão piorando", afirma Asal.   Vida dupla   A repressão imposta pelo governo e pelos clérigos iranianos originou uma espécie de dupla vida entre os jovens de Teerã, que não é apenas a capital, mas o centro intelectual e progressista do país. Para evitar problemas, eles fogem dos olhares repressores da polícia. A diversão, em Teerã, acontece dentro de casa.   As freqüentes festas entre amigos são animadas com música local, até mesmo rap, em geral gravadas por bandas iranianas no exterior, e CDs ocidentais. Estes não podem ser vendidos no Irã e passam longe das rádios, mas são trazidos na bagagem por amigos estrangeiros ou conseguidos via internet, embora muitos sites ainda sejam bloqueados pelas autoridades.   Álcool   "Nunca fui convidado para tantas festas na vida como agora. Os iranianos são muito animados", diz um jovem cientista político europeu, que preferiu não se identificar. Ele chegou a Teerã há pouco mais de um mês para trabalhar e conta que as bebidas alcoólicas, banidas pelo islamismo e ilegais no Irã, são entregues em casa, por armênios cristãos que vivem em Teerã.   "Basta telefonar. Se tem algo em que os iranianos são muito eficientes, é no serviço de entregas. O governo tenta impedir, mas praticamente tudo o que há no Ocidente se pode encontrar em Teerã."   Os iranianos, no entanto, não pretendem, com isso, tornar-se iguais aos ocidentais. Se há algo forte no Irã é o orgulho da própria origem e cultura. Os iranianos não querem ser parecidos com os europeus ou americanos. E, como se trata de um Estado islâmico com uma população bastante religiosa, muitos jovens escolhem não beber. Mas não se importam em dividir a pista de dança com um colega segurando um copo de vinho, uísque ou cerveja.   Roupa de festa   Nas festas particulares, a maioria das garotas não usa o véu e se veste com roupas ousadas. Mas o governo parece não se importar com isso, já que elas ocorrem longe dos olhos da opinião pública nacional e internacional. "Ainda não nos importunaram porque o governo não se importa com o que acontece entre quatro paredes. É com o que acontece aos olhos da sociedade que Ahmadinejad se preocupa", diz o jovem Amir Salah, vendedor de roupas para festas no shopping mais sofisticado de Teerã, o Shopping Safavieh, no bairro de Valiasr, onde vive a classe média alta sofisticada da capital iraniana.   Salah assinala, no entanto, que desde o início da ofensiva contra os jovens o movimento na loja caiu. "As mulheres, principalmente, têm medo de ser importunadas pelos policiais."   Outro vendedor, Amir Hussein, afirma não concordar com o governo. "Ahmadinejad está oprimindo o povo de todas as formas: com a economia, a forma de se vestir, a imagem internacional. Isso está errado", diz ele. "Cada pessoa deveria estar livre para fazer o que quer. Ser moderno, vestir-se bem e beber socialmente não muda o caráter das pessoas. Há muitas meninas que vestem o chador e fazem coisas por aí que você nem pode imaginar. Enquanto outras, que vestem roupas coloridas, usam maquiagem, enfim, não têm medo de se expressar, são muito conservadoras nos costumes."   Até para os padrões ocidentais, as roupas que Salah e Amir vendem parecem ousadas demais. Vestidos muito justos e curtos, decotados, coloridos e cheios de brilho. "As iranianas são muito modernas no modo de se vestir. Só não podem demonstrar isso nas ruas", diz uma estudante de desenho gráfico que se identificou como Niki Karimi, com um lenço vermelho que lhe exibia a metade das negras madeixas, rosto maquiado, roupa justa, embora não mostrasse nenhuma parte do corpo, e salto muito alto e fino.   Não seria paradoxal? "Não é paradoxal, é lei. Não há nada que possamos fazer a esse respeito. As mulheres são proibidas de sair à rua sem véu ou com roupas ousadas. Mas, na vida privada, não podem nos impedir de viver como queremos", afirma Salah. Os jovens dizem que bebem socialmente nas festas, onde Niki não usa o véu e adora usar vestidos curtos. "Meu irmão não gosta. Mas eu não ligo", diz. "Até agora, nenhum policial me parou, então, estou feliz."   "As mulheres modernas iranianas são muito elegantes", diz Salah. "Também são mais fiéis", complementa, explicando que a aparente modernidade não significa perversidade.   Proteção   Nesse sentido, usar o véu e o chador (o manto negro sobre o véu, que cobre a maior parte do corpo) parece uma forma de proteção. "Eu me sinto mais segura assim. Os homens não me olham, não me importunam nas ruas, e a polícia me deixa em paz. É uma opção. E, como sou muçulmana, para mim não é tão estranho estar coberta. Aqui há muitas outras garotas assim, não sou a única", diz a jovem estudante de letras Zeirab, de 20 anos, que há quatro meses adotou a veste. "Se eu fosse para o Brasil, não poderia me vestir assim porque chamaria muito a atenção e a idéia do uso do véu, no islamismo, é exatamente estar discreta."   Zeirab e a amiga, Saher, de 23 anos, afirmam concordar com a ação da polícia em casos mais explícitos, mas dizem que "dentro de casa" o governo não pode agir. "O que acontece na sua casa é algo privado, mas nas ruas você tem de estar de acordo com a sociedade. Numa praia de nudismo, por exemplo, se alguém aparecer com roupas estará fora dos padrões. É a mesma coisa", acredita. "O Irã é um país islâmico e você deve se comportar assim em público", diz a jovem.   Sexo antes do casamento ainda parece tabu. A maioria nega, mas diz ter muitas amigas dispostas a isso. "É muito comum hoje em dia", diz Mahsa. Zeirab e Saher concordam. "Sou muito moderada. Usar o chador não significa que seja uma pessoa fechada. Tenho muitas amigas que fazem muitas coisas. E o que fazem de suas vidas privadas não tem nada a ver com a minha amizade com elas. É algo pessoal de cada um", diz Zeirab.

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