Premiê de Israel se enfurece com suposta ofensa de autoridade dos EUA

O relato de que uma autoridade anônima dos Estados Unidos teria descrito o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, como um “covarde” provocou nesta quarta-feira uma reação contundente do líder israelense – que já tem um histórico de atritos com o governo do presidente norte-americano, Barack Obama.

JEFFREY HELLER, REUTERS

29 de outubro de 2014 | 18h52

A agressão do funcionário em uma entrevista à revista The Atlantic veio à tona na esteira de um mês de bate-boca entre o governo de Netanyahu e Washington por conta de novas construções em assentamentos em Jerusalém Oriental, que Israel anexou e que os palestinos querem como capital de um futuro Estado na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

“O negócio é que Bibi (apelido de Netanyahu) é um covarde”, teria declarado a autoridade não identificada.

“O bom de Netanyahu é que ele tem medo de desencadear guerras”, disse o funcionário, referindo-se a insinuações passadas de possíveis ações militares israelenses contra o programa nuclear do Irã. “O ruim é que ele não faz nada para obter uma conciliação com os palestinos ou com os Estados árabes sunitas”.

Netanyahu, disse a autoridade, segundo a publicação, só está interessado em “se proteger da derrota política… ele não tem fibra”.

Normalmente os líderes israelenses não respondem a comentários anônimos, mas Netanyahu abordou a fala diretamente no Parlamento, na abertura de uma cerimônia de homenagem a um ministro de Israel assassinado por um palestino em 2001.

“Nossos interesses supremos, a saber, a segurança e a unidade de Jerusalém, não são a principal preocupação daqueles funcionários anônimos que nos atacam, e a mim pessoalmente, já que a agressão contra mim só ocorre porque defendo o Estado de Israel”, disse Netanyahu.

“Apesar de todas as agressões que sofro, continuarei a defender nosso país. Continuarei a defender os cidadãos de Israel.”

As promessas de Netanyahu ecoaram nos eleitores israelenses, mesmo em meio aos temores de que sua relação tensa com Obama possa em última instância enfraquecer o apoio do maior aliado diplomático e fornecedor de armas do Estado judeu.

Após o discurso de Netanyahu, Alistair Baskey, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, repudiou a suposta ofensa, negando que ela reflita o que o governo Obama pensa do líder israelense.

“Certamente esta não é a visão do governo, e achamos que tais comentários são impróprios e contraproducentes”, disse.

CAMPANHA ANTECIPADA

Alguns especialistas israelenses preveem uma eleição no país em 2015, dois anos antes do prazo, e suas especulações parecem apoiadas pelas críticas cada vez mais estridentes de ministros de destaque, à direita e à esquerda de sua coalizão de governo, a suas políticas.

O ministro da Economia, Naftali Bennett, cujo partido ultranacionalista Lar Judeu pertence à coalizão mas tem relações conflituosas com Netanyahu, o defendeu nesta quarta-feira.

“O primeiro-ministro de Israel não é um cidadão particular. Ele é o líder do Estado judeu e de todo o povo judeu. Ofender o primeiro-ministro e lhe dirigir xingamentos é um insulto não só a ele, mas aos milhões de cidadãos israelenses e judeus em todo o globo”, escreveu ele no Faceboook.

Já o líder da oposição, Isaac Herzog, emitiu uma nota mais crítica, declarando ao canal de televisão Channel Two: “Netanyahu está agindo como um piromaníaco político, e levou nossa relação com os Estados Unidos a uma deterioração jamais vista”.

Em uma série de discursos vistos por muitos em Israel como uma preparação para uma possível eleição, Netanyahu ressaltou as preocupações crescentes com segurança, após a guerra recente com o Hamas em Gaza e os tumultos regionais que levaram militantes islâmicos à fronteira norte de Israel com a Síria.

Israel também teme que as potências mundiais, lideradas pelos EUA, concordem com o que vê como limitações insuficientes ao programa nuclear iraniano.

(Reportagem adicional de Matt Spetalnick em Washington)

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