Premiê israelense Ehud Olmert deixa o cargo em setembro

Pressionado após escândalos de corrupção, Ehud Olmert afirma que não concorrerá nas eleições do partido

Agências internacionais,

30 de julho de 2008 | 14h20

O primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, afirmou nesta quarta-feira, 30, que não concorrerá nas próximas eleições de seu partido, o Kadima, em setembro, finalizando um mandato marcado por investigações de corrupção. O anuncio significa o fim de seu mandato e pode adiar os esforços na busca por um acordo de paz com os palestinos.  Veja também:EUA baixam expectativas de reunião com israelense e palestino Sua decisão de não concorrer nas primárias de 17 de setembro abre o processo para a escolha de um novo primeiro-ministro. Se o próximo líder do Kadima não conseguir formar uma aliança com os demais partidos, Israel entrará em uma campanha eleitoral que pode durar meses. "Após a eleição do meu sucessor, eu renunciarei para permitir que um novo governo seja formado rapidamente". Adversários políticos e até mesmo aliados chegaram a pedir pela saída do premiê. Quatro ministros do governo, incluindo a ministra de Relações Exteriores, Tzipi Livni, e o ministro dos Transportes, Shaul Mofaz, já lançaram campanhas para ocupar o cargo de Olmert. Livni já pediu a renúncia de Olmert há um ano, quando uma comissão apontou falhas durante o gerenciamento da guerra com a guerrilha libanesa Hezbollah em 2006. O Kadima foi fundado pelo ex-premiê Ariel Sharon em 2005. Olmert tomou a liderança em janeiro de 2006, quando Sharon entrou em coma.  Livni é amplamente vista como a provável sucessora de Olmert na presidência do partido. No entanto, se o Kadima não conseguir formar um governo de coalizão e novas eleições gerais para o parlamento forem convocadas,  pesquisas de opinião indicam que a chanceler israelenses seria derrotada pelo direitista Benjamin Netanyahu, o líder da oposição e do bloco nacionalista Likud. Uma pesquisa divulgada pouco depois do anúncio de Olmert pelo canal de TV israelense Channel 10 aponta que 36% da população prefere que Netanyahu assuma o cargo, informa a edição online do jornal Haaretz. A chanceler Tzipi Livni tem 24,5% da preferência. Já o ministro da Defesa Ehud Barak, do Partido Trabalhista, tem apenas 11,9% da preferência. A mesma pesquisa aponta que 77,3% dos israelenses estão insatisfeitos com a gestão de Olmert. O premiê justificou sua renúncia pela atual investigação por suborno. Ele é acusado de ter recebido elevadas quantias de um empresário americano em cargos públicos anteriores, mas disse que no futuro conseguirá provar sua inocência, e seu nome ficará limpo de suspeita. Além disso, quis "deixar claro" que está "orgulhoso de ser cidadão de um país no qual o primeiro-ministro pode ser investigado como um cidadão comum". "Investigar é o dever da polícia e o da Procuradoria é instruir a polícia. O primeiro-ministro não está acima da lei, mas também não está abaixo de nenhuma maneira", disse. Olmert insistiu também em que continuará lutando para alcançar a paz com os palestinos e os sírios durante o tempo que permanecer no cargo. Para muitos, o primeiro-ministro, abalado por escândalos políticos, iniciou o diálogo sobre a criação do Estado palestino, o impasse sobre as Colinas de Golan disputadas com a Síria e a troca de prisioneiros com os libaneses do Hezbollah como uma manobra para desviar a atenção das acusações de corrupção que ameaçavam o seu mandato. Escândalos de corrupção Olmert é investigado por uma série de alegações de corrupção, mas nunca foi acusado formalmente ou condenado em nenhum dos casos. Entre eles está uma investigação criminal por suspeitas em torno da compra de um imóvel em Jerusalém. Olmert teria comprado uma casa por preço muito abaixo do valor de mercado, levantando suspeitas de fraude e pagamento de subornos. Em 2004, o premiê comprou uma casa construída pela empreiteira Alumot num bairro de alto padrão da cidade sagrada pelo equivalente a R$ 2,25 milhões, mais de R$ 600 mil abaixo do valor de mercado. A investigação tenta apurar também se pessoas ligadas ao primeiro-ministro ajudaram a construtora Alumot a obter alvarás ilegais de obras dentro de Jerusalém, aumentando consideravelmente os lucros da empresa.  A polícia também suspeita que a agência de viagens de Olmert emitiu várias faturas para roteiros e depois transferiu o dinheiro excedente para uma conta bancária no nome dele. O dinheiro seria usado para as viagens particulares de premiê.  A Justiça israelense acusa o político de ter múltiplas fontes para bancar suas viagens internacionais, para que ele pudesse embolsar a diferença nos valores. Olmert ainda é investigado por milhares de dólares em doações recebidas antes de assumir o cargo de primeiro-ministro, em 2006. O premiê negou qualquer ilegalidade e prometeu renunciar caso seja indiciado.  Contudo, o político sofre pressão para renunciar desde que o empresário americano Morris Talansky confessou ter enviado envelopes com mais de US$ 150 mil (R$ 247,5 mil) em dinheiro o premiê.  Segundo Talansky, parte do valor foi usado para bancar os gostos extravagantes do premiê - o empresário dos EUA, porém, garantiu que nunca recebeu nenhuma contrapartida pelas doações. Em outro incidente, Olmert, quando ministro das Finanças em 2005, teria tentado influenciar a venda do controle do Estado sobre o segundo maior banco do país, o Banco Leumi, em favor de duas pessoas. Olmert foi prefeito de Jerusalém por dez anos, até 2003. Depois, assumiu o ministério pelos dois anos seguintes, até substituir Ariel Sharon como primeiro-ministro. Reação palestina O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, classificou o anúncio de Olmert como "problema interno de Israel" e declarou que trabalhará com seu sucessor, disse um porta-voz nesta quarta-feira. "Este é um problema interno de Israel. A Autoridade Palestina negocia com o primeiro-ministro de Israel, seja ele Olmert ou qualquer outro", disse o porta-voz de Abbas, Nabil Abu Rdainah. "A preocupação dos palestinos é com um premiê comprometido com a paz." Apoio americano Um porta-voz da Casa Branca disse que o presidente George W. Bush atendeu um telefonema de Olmert logo após o anúncio do premiê em Israel. O porta-voz Gordon Johndroe afirmou que Bush tem intenção de trabalhar próximo a Olmert até sua renúncia. Johndroe declarou que o líder americano aprecia a amizade do primeiro-ministro, sua liderença e trabalho para a paz.  Matéria atualizada às 21h35. 

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