Presidente do Irã faz visita histórica ao Iraque

Depois de quase 30 anos, presidentes do Irã e Iraque reunem-se, iniciando um novo capítulo em suas relações

Agências internacionais

02 de março de 2008 | 17h05

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, tornou-se neste domingo, 2, o primeiro chefe de governo de seu país a visitar o Iraque desde a Revolução Islâmica no Irã em 1979. Ele se encontrou presidente iraquiano, Jamal Talabani, e com o primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, em reuniões que analisaram meios para afiançar a cooperação e as relações bilaterais entre os dois países.     "Tivemos conversações muito boas, que foram amigáveis e fraternais. Temos entendimentos e pontos de vista comuns sobre todas as áreas e os dois lados pretendem melhorar as relações tanto quanto possível", disse Ahmadinejad a jornalistas depois de reunir-se com o presidente do Iraque, Jamal Talabani.    A entrevista coletiva conjunta foi conduzida na residência oficial de Talabani, do outro lado do rio Tigre em relação à Zona Verde, a área fortificada onde ficam a embaixada dos EUA e o comando das tropas de ocupação norte-americanas. O ministro das Relações Exteriores do Iraque, Hoshyar Zebari, disse que o presidente iraniano ficaria em Bagdá até a manhã desta segunda-feira.    Durante a coletiva, Talabani disse que os dois líderes discutiram questões econômicas, políticas, de segurança e relacionadas a petróleo. A questão da soberania sobre o canal Shatt-el-Arab, motivo da guerra entre os dois países, iniciada em 1980, não chegou entrar em discussão.   A visita de Ahmadinejad é a primeira de um líder iraniano desde o triunfo da Revolução Islâmica no Irã, em 1979. Um ano depois, o Iraque invadiu o Irã, e os dois países se envolveram em uma sangrenta guerra que durou oito anos (1980-1988) e na qual mais de 1 milhão de pessoas morreram e não alterou o traçado original da fronteira entre os dois países, um dos principais motivos do conflito.    Ahmadinejad declarou que o Irã quer um Iraque estável, que beneficiaria toda a região. "Um Iraque unido, soberano e desenvolvido seria um benefício para todos os países da região e para o povo do Irã", disse o presidente iraniano. Ele rejeitou as acusações, feitas pelo governo dos EUA, de que o Irã estaria armando milícias xiitas iraquianas para ataques contra as tropas de ocupação norte-americanas. "Essas acusações aumentam os problemas para os americanos nesta região; elas não vão resolver nenhum problema", acrescentou.    Já o primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, disse que a visita do presidente iraniano aconteceu em um "ambiente positivo" e é "uma expressão do desejo forte de melhora nas relações e de desenvolver interesses mútuos, depois das tensões do passado, do tempo da ditadura".    Maliki disse que a visita de Ahmadinejad é bem vinda no Iraque porque "expressa o interesse dos países, vizinhos e amigos, em assegurar seus laços e ampliar o leque de seus interesses comuns".    Novo Capítulo    Ahmadinejad saudou o início de um novo capítulo nas relações de seu país com o Iraque, dizendo estar "verdadeiramente feliz" em fazer a viagem histórica a Bagdá, agora que o arquiinimigo iraquiano Saddam Hussein não está mais no poder.    Assim, sua visita ao país em que os EUA mantêm mais de 150 mil soldados possui valor simbólico, além de reforçar os laços econômicos e culturais entre os dois países vizinhos, ambos governados por maiorias xiitas.     "Esta visita vai abrir um novo capítulo em nossas relações bilaterais e favorecerá o ambiente de cooperação na região", disse Ahmadinejad. "Uma visita ao Iraque sem o ditador é verdadeiramente feliz", disse ele, falando de Saddam, que foi executado pelo governo iraquiano em dezembro de 2006.     Muitos dos líderes xiitas iraquianos se exilaram no Irã durante o longo governo de Saddam, e analistas dizem que Ahmadinejad vai usar sua visita para mostrar a Washington que Teerã é uma influência forte no Iraque, que não pode ser ignorada.     Para combater os esforços dos EUA de isolar Teerã no palco internacional devido a seu programa nuclear, o presidente iraniano vem procurando melhorar as relações com os Estados árabes da região.     Americanos   Ahmadinejad disse que o chefe do Estado americano, George W. Bush, deve aceitar o fato de que o povo iraquiano "não quer os americanos".    Assim, o presidente respondeu às acusações dos EUA de que seu país fomenta a violência no Iraque e às declarações de Bush, que disse que a República Islâmica "deve deixar de exportar terrorismo".    Ironicamente, sua viagem só foi possibilitada pela invasão liderada pelos EUA, seu inimigo de longa data. Ahmadinejad já pediu várias vezes a saída das forças americanas, às quais culpa pela violência sectária que matou dezenas de milhares de iraquianos desde 2003.     Washington diz que Teerã dá armas e treinamento às milícias xiitas para que ataquem tropas dos EUA. Teerã desmente a acusação. Analistas dizem que o Irã quer um Iraque estável mas, ao mesmo tempo, quer dificultar a situação das forças de ocupação americanas.     O presidente americano pediu à comunidade internacional que se mostre firme em sua decisão de continuar isolando o Irã até que o país "esclareça suas ambições nucleares".    Sua visita a Bagdá se dá um dia antes de o Conselho de Segurança da ONU decidir pelo voto a aplicação de uma terceira rodada de sanções contra o Irã devido a seu programa nuclear, que Teerã diz ter finalidade pacífica mas que os EUA afirmam visar a fabricação de armas nucleares.   Autoridades dos EUA em Bagdá disseram que não exercerão nenhum papel na visita de Ahmadinejad e que as forças americanas não o protegerão em seus deslocamentos.    Visita    Depois de chegar ao aeroporto de Bagdá, Ahmadinejad foi ao palácio presidencial de Talabani em comboio de automóveis. Os dignitários estrangeiros geralmente cobrem o trajeto de helicóptero, para evitar a estrada perigosa do aeroporto.    Diferentemente do sigilo forte que cerca as visitas não anunciadas do presidente Bush, para reduzir os riscos de ataques, a visita de Ahmadinejad foi amplamente anunciada. E, diferentemente de Bush, o presidente iraniano vai passar uma noite em Bagdá.

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