Primeira eleição líbia pós-Gaddafi testa força do islamismo político

Num pequeno hotel no centro de Trípoli, cerca de 50 políticos de toda a Líbia aprendem a projetar a mensagem islâmica do seu novo partido para a eleição de sábado, a primeira no país em uma geração.

HADEEL AL SHALCHI, Reuters

05 de julho de 2012 | 10h16

"Vão perguntar a vocês como vocês veem as mulheres no partido e qual é a nossa relação com Abdul Hakim Belhadj", diz Ismail al Greitly, coordenador de campanha do partido Al Watan, referindo-se a um ex-militante islâmico que trocou a sua habitual farda por ternos bem cortados e pela defesa da democracia.

Após a rebelião popular que depôs ditadores na Tunísia e Egito em 2011, eleições democráticas nesses países resultaram em Parlamentos dominados por grupos islâmicos que haviam passado décadas sendo reprimidos.

Em 7 de julho, a Líbia, que derrubou o líder Muammar Gaddafi numa sangrenta rebelião apoiada pela Otan, irá determinar se o islamismo político prosseguirá sua ascensão pós-Primavera Árabe.

Os partidos políticos já estavam proibidos antes de Gaddafi tomar o poder, em 1969, e por isso os líbios têm pouca experiência com qualquer coisa semelhante à democracia.

"Não há linguagem política na Líbia. Não há linguagem para a democracia ou qualquer nível de sofisticação política", disse a jornalista Mary Fitzgerald, que prepara um livro sobre os políticos islâmicos da Líbia.

"Quando uma população como esta está experimentando eleições pela primeira vez, os candidatos usam uma linguagem que ecoa junto aos eleitores. Neste caso, isso significa uma linguagem relacionada à religião, tradição e cultura", acrescentou.

Valores conservadores já permeiam muitos aspectos do cotidiano líbio, inclusive na política. Mesmo durante a era Gaddafi, o álcool já era proibido, embora militantes islâmicos --entre outros oponentes do governo-- perecessem nas prisões.

Embora muitos líbios devam votar seguindo uma lógica associada a clãs e relações pessoais, as quais continuam nos alicerces da política e dos negócios, a retórica islâmica tem assumido o protagonismo nessa que será a primeira eleição em meio século.

Ao contrário da Tunísia e do Egito, onde os partidos Ennahda e Irmandade Muçulmana eram claros favoritos, na Líbia a escolha dos 200 deputados deve refletir uma fragmentação entre interesses locais conflitantes. Mas, independentemente disso, muitos dos eleitos devem ser socialmente conservadores, ou políticos islâmicos de várias estirpes.

Na verdade, quase todos os grupos, inclusive os liberais, precisaram usar um "quadro islâmico de referência" em suas campanhas para atrair eleitores que estão confortáveis com sua identidade islâmica, mas sofrem para decifrar a linguagem da política partidária e da democracia, na qual "secularismo" virou palavrão.

No complexo novo sistema eleitoral, cerca de 2.500 indivíduos concorrem de forma independente por 120 cadeiras. Outras 80 vagas serão divididas entre mais de 500 candidatos distribuídos em listas partidárias.

(Reportagem adicional de Ali Shuaib)

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