Projeto nuclear da Síria não traz risco de bomba, diz El Baradei

A busca da Síria por auxílio na construção de uma usina nuclear não representa risco de proliferação de armas, e a decisão do Ocidente de bloquear o projeto poderia desacreditar o órgão de supervisão nuclear da Organização das Nações Unidas (ONU), disse o diretor da instituição em comentários divulgados nesta terça-feira. Potências ocidentais querem que o projeto seja desconsiderado porque a Síria está sendo investigada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da ONU. A inteligência norte-americana afirma que o país tentou encobrir a construção de um reator nuclear destinado à produção de plutônio para bombas atômicas. A pressão encontrou resistência em um conselho de diretores da AIEA. Países como Rússia, China e outras nações em desenvolvimento não vêem espaço para a "politização" da AIEA sem provas de que um país tenha violado as regras de não-proliferação. Um relatório da AIEA divulgado na semana passada afirmou que uma construção na Síria destruída por um ataque aéreo israelense no ano passado tinha semelhanças com um reator nuclear. O local apresentava também partículas de urânio, possivelmente resquícios de combustível nuclear antes do enriquecimento. Mas o órgão salientou que as descobertas são preliminares, e que mais visitas ao local e mais documentos com provas da versão do governo sirio são necessários para se chegar a alguma conclusão. O diretor da AIEA, Mohamed El Baradei, disse que a intervenção de potências ocidentais contra a Síria não tem base legal e que não há como a Síria usar o projeto --um estudo sobre a viabilidade de uma usina nuclear-- com fins militares. Impedir a ajuda da AIEA a um país com base em acusações sem provas "não faz parte do nosso léxico, não faz parte do nosso estatuto", disse em uma sessão do conselho da agência, composto por 35 países, de acordo com uma transcrição divulgada por seu gabinete. ESTUDO "INÓCUO" O projeto de 350 milhões de dólares é um estudo de "viabilidade técnica e econômica e de escolha de lugar" para uma usina nuclear na Síria. Ele seria realizado entre 2009 e 2011. El Baradei afirmou que todos os equipamentos que seriam fornecidos à Síria sob os olhos da AIEA "seriam relevantes para o projeto e... de natureza inócua". "Nenhum deles requer qualquer salvaguarda", acrescentou ele, em referência à supervisão feita pela AIEA para evitar a produção de bombas nucleares. Ele alertou que se o projeto da Síria for bloqueado por "considerações políticas", a AIEA perderá credibilidade nos países em desenvolvimento que buscam a energia atômica pacífica e isso desencorajaria a cooperação nos Estados sob investigação. Diplomatas disseram que um acordo está em discussão. Nele, um grupo liderado pelos Estados Unidos abriria mão de se opor ao projeto, permitindo sua aprovação por consenso, desde que a AIEA prometesse arranjar o projeto de forma a garantir que nenhum equipamento seja introduzido até o final. "Algumas potências ocidentais querem que El Baradei recue, mas ele não irá", disse um diplomata que preferiu não se identificar.

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