Questões domésticas e difícil negociação adiam acordo do Irã

Teerã e o P5+1 tentarão superar divergências internas até novembro para obter uma solução para a questão nuclear

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2014 | 02h02

A complexidade dos pontos negociados e questões políticas internas fizeram com que a euforia sobre o que seria o fim de um dos mais intricados impasses da diplomacia internacional desse lugar a uma comedida esperança de um acordo final sobre a questão nuclear iraniana.

O prazo para um acordo definitivo expiraria hoje. Mas, na sexta-feira, os negociadores reunidos em Viena desde o dia 3 anunciaram que o único acordo que havia era, na verdade, para estender o prazo para 24 de novembro.

Ao longo da última semana, essa possibilidade foi ganhando força, especialmente depois que o presidente americano, Barack Obama, autorizou o secretário de Estado, John Kerry, a aceitar o adiamento. A explicação oficial dizia que um acerto estaria perto de ser alcançado, mas ainda havia algumas "lacunas" que não poderiam ser preenchidas dentro do prazo, afirmou um comunicado conjunto da chefe da diplomacia da União Europeia, Catherine Ashton, e do ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohamed Yavad Zarif.

O adiamento, porém, pode ter outras explicações. Uma das hipóteses é a de que o prolongamento das negociações por mais alguns meses seria, na verdade, uma maneira de o aiatolá, Ali Khamenei, reforçar seu poder internamente.

Apesar de ele ter dado sua bênção ao presidente Hassan Rohani tocar a negociação com o Ocidente, um desfecho favorável em apenas seis meses seria uma vitória para o líder e seus aliados em Teerã considerados moderados dentro da complexa estrutura de poder persa.

Com o acordo, viria também o alívio das sanções impostas ao país na última década que têm estrangulado sua economia. Reverter esse quadro poderia significar uma expressiva vantagem nas urnas para a facção moderada e centrista, desagradando aos mais conservadores, próximos do aiatolá, e afetando o equilíbrio de forças que Khamenei tenta manter no país, como apontaram fontes do governo iraniano à Reuters.

A especialista em Irã do Programa de Não Proliferação e Desarmamento do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (em Londres), Dina Esfandiary, avalia que existe ainda um espaço político para EUA e Irã chegarem a um acordo amplo, mas ele não vai durar muito mais do que alguns meses. "O prazo ideal seria até setembro. Isso permitiria que o acordo fosse implementado antes das eleições americanas, em novembro", afirmou a especialista, em entrevista ao Estado.

Obama enfrenta a resistência e o desejo por mais sanções de congressistas em Washington. Caso um acordo seja alcançado, mas mesmo assim os republicanos decidam impor novas sanções contra Teerã, o projeto poderia ser derrubado pelo Senado, onde o Partido Democrata tem a maioria. Mas as eleições de meio de mandato podem mudar esse equilíbrio de forças.

Em novembro, o Irã e os países do P5+1 (os cinco membros do Conselho de Segurança - EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha e França - mais a Alemanha) alcançaram um acordo provisório, sob a coordenação de Ashton. As partes estabeleceram um prazo de seis meses, a partir de sua aplicação, em janeiro, para alcançar um acordo definitivo que garanta a natureza pacífica do programa nuclear iraniano.

O acordo foi o primeiro avanço em anos e a possibilidade de um entendimento abriu as portas também para a reaproximação entre EUA e Irã, cujas relações foram rompidas no fim dos anos 70, após a Revolução Islâmica. "O novo governo no Irã quer evoluir as relações com o Ocidente, mas essa trajetória depende do sucesso das negociações nucleares", lembra Esfandiary.

Apesar da rivalidade entre os dois países, há uma agenda de temas comuns, como Iraque e Afeganistão, por exemplo. O avanço do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil) em território iraquiano colocou Washington e Teerã do mesmo lado, em um esforço para ajudar o governo xiita, assim como o Irã, de Nuri al-Maliki, a combater a insurgência sunita.

Ao mesmo tempo, os dois países estão em lados opostos em conflitos na região, como na Síria, que tem um governo alauita, uma ramificação do xiismo e é apoiado por Teerã, e na Palestina, onde Israel, aliado dos EUA e inimigo histórico do Irã, acaba de lançar uma grande ofensiva militar.

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