Rebeldes líbios caçam Gaddafi e sofrem resistência em Trípoli

Muammar Gaddafi foi alvo de uma caçada humana na segunda-feira, enquanto seus últimos soldados ofereciam uma desesperada resistência na capital ao avanço das forças rebeldes, já reconhecidas pelas principais potências mundiais como legítimos senhores da Líbia e das suas riquezas petrolíferas.

ULF LAESSING E MISSY RYAN, REUTERS

22 de agosto de 2011 | 20h10

Dois dias depois das primeiras incursões rebeldes na capital, que se somavam a uma rebelião dentro da cidade, os tanques e franco-atiradores do regime parecem dominar apenas pequenas áreas, inclusive o complexo governamental de Bab al Aziziya.

O paradeiro do próprio Gaddafi é desconhecido. Mohammad, o filho mais velho de Gaddafi, fugiu de sua residência em Trípoli após ter sido cercado por forças rebeldes. Os outros dois filhos de Gaddafi permanecem sob custódia.

Os civis, que no domingo saíram às ruas para celebrar o fim da ditadura, passaram a segunda-feira dentro de casa, assustados com as explosões e as rajadas de metralhadoras, num dos mais intensos combates da chamada "Primavera Árabe", uma onda de rebeliões que vem alterando o cenário político do Oriente Médio nos últimos meses.

O presidente dos EUA, Barack Obama, disse que o conflito ainda não terminou, mas que o regime de Gaddafi, iniciado há 42 anos, acabou. Ele conclamou Gaddafi a se render para encerrar o derramamento de sangue, após seis meses de uma guerra civil em que os rebeldes tiveram apoio militar decisivo da Otan.

"A revolução é de vocês", disse Obama, dirigindo-se ao povo líbio e oferecendo ajuda financeira, mas sem o envio de tropas. "A Líbia que vocês merecem está ao seu alcance", acrescentou, junto com um pedido aos rebeldes para que não acertem contas de forma sangrenta.

Correspondentes da Reuters testemunharam tiroteios e confrontos com armas pesadas, inclusive canhões antiaéreos, enquanto os rebeldes tentavam eliminar franco-atiradores e bolsões de resistência. Aparentemente, centenas de pessoas foram mortas ou feridas desde sábado.

A Al Jazeera disse que três filhos de Gaddafi foram capturados, mas um deles - Mohammed - conseguiu fugir. Um quarto filho, o comandante militar Khamis, teria sido morto, e seu corpo teria sido achado junto com o do poderoso chefe de inteligência Abdullah al Senussi. A emissora árabe não identificou as fontes dessas informações.

Em seu último pronunciamento, num áudio transmitido no domingo, em tom desafiador, antes de a emissora estatal de TV sair do ar, Gaddafi disse que permaneceria em Trípoli "até o fim". Havia rumores de que ele buscaria refúgio em sua região natal, nos arredores da cidade de Sirte, ou no exterior.

Faz dois meses que ele não é visto em público.

NOVAS BANDEIRAS

Uma fonte oficial dos EUA disse não haver sinais de que Gaddafi teria fugido da Líbia. Restam-lhe poucos amigos no país. Seu primeiro-ministro apareceu na Tunísia. Mais embaixadas líbias hastearam a bandeira tricolor dos rebeldes, no lugar do pavilhão todo verde do regime de Gaddafi.

"Hoje é um grande dia para a Líbia", declarou Ali Awidan, embaixador líbio junto à União Africana, em Adis Abeba. Ele lembrou aos governos africanos, que outrora estiveram entre os poucos aliados e beneficiários do regime líbio, que os rebeldes agora controlarão "bilhões de dólares".

"Gaddafi em breve será capturado", acrescentou.

Governos estrangeiros que hesitavam em tomar partidos também deixaram claro que o regime absolutista caiu. China, Rússia e vários governos árabes reconheceram a autoridade dos rebeldes sobre a Líbia.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, um dos primeiros a apoiar os rebeldes, pediu aos seguidores de Gaddafi que "deem as costas para a loucura criminosa e cínica do seu líder, suspendendo imediatamente os disparos". A França propôs a realização de uma cúpula sobre a Líbia na semana que vem.

Na cidade de Benghazi, "capital" dos rebeldes no leste do país, um membro do Conselho Nacional de Transição disse que vários representantes da oposição se infiltraram nos últimos dias em Trípoli para manterem contatos com autoridades até então leais a Gaddafi, a fim de evitar uma situação de caos na cidade.

Shamsiddin Abdulmolah disse que funcionários inclinados a desertarem foram convencidos a continuarem nos seus cargos e ajudarem na administração da capital. "Cada bairro tem seu pequeno conselho, e hoje tomamos a administração, inclusive os assuntos militares e a segurança", disse ele.

Há preocupações de que divisões tribais, étnicas e políticas entre os rebeldes façam a Líbia mergulhar em uma fase de violência, a exemplo do que ocorreu no Iraque após a queda de Saddam Hussein. Por outro lado, a presença de ex-assessores de Gaddafi entre os rebeldes traz esperanças de que o novo governo possa ser mais inclusivo do que foi o do Iraque.

Mustafa Abdel Jalil, que foi ministro da Justiça de Gaddafi até fevereiro e hoje comanda o Conselho Nacional de Transição, disse a jornalistas em Benghazi. "Peço a todos os líbios que exerçam a automoderação e respeitem a propriedade e as vidas dos outros, e que não recorram a tomar a lei nas próprias mãos."

Em 2003, Saddam conseguiu fugir das forças dos EUA em Bagdá e passou oito meses foragido. No caso de Gaddafi, que não tem lealdade total nem da sua própria tribo, não está tão claro se ele encontraria refúgio. Por outro lado, ele tinha acesso a uma enorme riqueza, e o complexo governamental de Bab al Aziziya abrange uma rede de túneis e bunkers blindados, o que supostamente inclui rotas de fuga.

COMPETIÇÃO POR PETRÓLEO

Jalil disse que o Conselho Nacional vai favorecer economicamente países que apoiaram a rebelião - o que pode complicar as ambições de empresas petrolíferas chinesas e russas, embora estas não tenham sido as únicas a fazerem negócios com Gaddafi.

Já há sinais de retomada da produção de petróleo, base da economia do país. A Itália disse que uma equipe da italiana Enni chegou à Líbia para examinar a possibilidade de reativar suas instalações.

A Itália, país europeu mais próximo da Líbia e potência colonial até a Segunda Guerra Mundial, é um importante cliente da energia líbia. Mas Roma enfrentará uma dura concorrência de outros interessados em explorar as riquezas locais - uma competição que, temem alguns, poderá se mostrar fatal para a coesão líbia nas mãos dos inexperientes líderes rebeldes.

Por enquanto, porém, o clima é festivo. Na noite de domingo, uma multidão com bandeiras rebeldes foi à praça Verde, tradicional centro de veneração a Gaddafi. Muitos presentes diziam que o local terá seu nome alterado para praça dos Mártires.

Durante a celebração, jovens queimaram bandeiras verdes do regime e hastearam a tricolor vermelha, verde e preta que identificava a monarquia pós-colonial, e que deixou de ser usada quando Gaddafi assumiu o poder, num golpe militar em 1969.

No hotel Rixos Nasr, onde o governo obrigava os jornalistas a se hospedarem durante a guerra, guardas leais a Gaddafi impediam os repórteres de saírem.

Há apenas cinco meses, antes da intervenção da Otan, cumprindo mandato da ONU, as forças de Gaddafi pareciam prestes a esmagar os rebeldes em Benghazi. Suas forças, prometia na época o governante, iriam caçá-los "beco a beco, casa a casa, sala a sala".

É um refrão que os rebeldes agora estão usando contra Gaddafi.

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