Rebeldes líbios compram grãos em primeiras grandes transações

Rebeldes da Líbia compraram perto de 100 mil toneladas de trigo e farinha de trigo nas últimas semanas, as primeiras transações comerciais importantes feitas pelos combatentes que lutam para depor Muammar Gaddafi, disseram fontes comerciais.

MICHAEL HOGAN E JONATHAN SAUL, REUTERS

20 de junho de 2011 | 13h04

Eles disseram que as cargas de alimentos estão chegando principalmente por terra, passando pelo Egito e a Tunísia. Poucas estão chegando por mar, na medida em que os proprietários de navios continuam relutantes em colocar suas embarcações em risco.

Fontes disseram que o Catar e possivelmente os Emirados Árabes Unidos forneceram o financiamento que possibilitou aos rebeldes fechar os negócios.

"É difícil dizer quanto foi importado. Arrisco que deve ter sido um pouco abaixo de 100 mil toneladas", disse um negociante de grãos. "Já reservei vários contratos para farinha de trigo de procedência russa para ser enviada entre junho e agosto."

Outro negociante disse: "Acho que os rebeldes compraram cerca de 50 mil toneladas de trigo e 50 mil toneladas de farinha de trigo nas últimas semanas."

A Líbia era grande importadora de alimentos até que os combates interromperam as cadeias de fornecimento.

Comerciantes disseram que rebeldes do leste da Líbia compraram farinha da Rússia e União Europeia e que trigo foi comprado da França, Sérvia, Ucrânia e outros produtores. De acordo com as fontes, o Conselho Nacional de Transição (CNT), sediado na cidade de Benghazi, no leste da Líbia e controlada pelos rebeldes, está fazendo as transações.

"No momento, bancos europeus não estão se dispondo a confirmar cartas de crédito para o governo, mas estão se dispondo a trabalhar com o lado rebelde", disse outro negociante europeu. "Muitas vezes a palavra 'Líbia' não aparece nos documentos bancários."

"Os rebeldes parecem dispor de dinheiro para pagar. As pessoas especulam se o dinheiro vem de suas vendas de petróleo ou de um governo que lhes esteja dando apoio."

As compras de alimentos pelos rebeldes vinham sendo prejudicadas pela dificuldade de negociar e obter pagamento de um entidade não reconhecida, somada às incertezas em função das sanções impostas a Gaddafi.

Negociantes disseram que os grãos comprados foram enviados via empresas privadas com sedes na Tunísia, Egito, Itália e outros países. Essas firmas organizaram o financiamento das transações com bancos europeus.

Na semana passada, a Alemanha reconheceu o CNT como único representante legítimo da Líbia, unindo-se assim a cinco outros países da UE, um dos quais é a Espanha.

"Os rebeldes não são controlados pelos interesses de Gaddafi, de modo que podem comprar, vender e firmar contratos com quem quiserem", disse Philip Roche, sócio da firma de direito Norton Rose.

As transações comerciais envolvendo alimentos feitas com entidades ligadas a Gaddafi são mais difíceis de realizar, em contraste com envios de ajuda, que é simplesmente doada.

"Será difícil encontrar um banco que forneça cartas de crédito ou receba fundos vindos da Líbia", disse Roche.

"Seria preciso obter licenças, e isso pode ser complicado, dependendo de quem está por trás da importadora líbia. Será muito mais fácil fechar contratos comerciais para a compra de alimentos com entidades ligadas a Gaddafi."

O Catar tem estado na linha de frente da assistência aos rebeldes. Este mês os EAU tornaram-se o único outro Estado árabe, depois do Catar, a reconhecer o conselho rebelde como único representante legítimo da Líbia.

(Reportagem adicional de Valerie Parent em Paris)

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