Rebeldes líbios oferecem recompensa por Gaddafi

Os novos senhores da Líbia ofereceram nesta quarta-feira um milionário prêmio pela captura do foragido líder líbio Muammar Gaddafi, que conclamou seus seguidores a continuarem lutando na capital.

MISSY RYAN E ULF LAESSING, REUTERS

24 de agosto de 2011 | 19h31

Um dia depois de as forças insurgentes ocuparem o complexo governamental de Bab al-Aziziya, destruindo símbolos de um regime que durou 42 anos, bolsões esparsos de seguidores recalcitrantes de Gaddafi continuavam ativos. Os rebeldes também disseram haver batalhas no deserto e em torno da cidade natal do dirigente.

Em Trípoli, tiroteios e foguetes mantiveram 2 milhões de civis dentro das suas casas. Já começa a haver escassez de comida, água e remédios, necessários para atender centenas de feridos.

"As forças de Gaddafi e seus cúmplices não irão parar de resistir até que Gaddafi seja apanhado ou morto", disse Mustafa Abdel Jalil, chefe do Conselho Nacional de Transição, que ofereceu anistia a qualquer membro do regime que mate o agora ex-governante, além de anunciar uma recompensa de 1 milhão de dólares por sua captura.

"O final só virá quando ele for capturado, vivo ou morto", disse Abdel Jalil em Benghazi, a "capital" dos rebeldes no leste do país.

Num áudio de má qualidade divulgado durante a noite, Gaddafi, de 69 anos, conclamou as tribos líbias a "exterminarem os traidores, os infiéis e os ratos."

O paradeiro dele é desconhecido, mas seus inimigos supõem que ele ainda esteja em Trípoli ou arredores, depois de uma retirada que o próprio Gaddafi qualificou de "tática."

Mas líderes ocidentais e dirigentes rebeldes não perderam tempo em preparar o descongelamento do patrimônio líbio no exterior.

Os EUA devem submeter à Organização das Nações Unidas (ONU) uma resolução que libera imediatamente 1,5 bilhão de dólares em ajuda humanitária. Mais verbas podem se seguir.

A Líbia é rica em petróleo, mas quatro décadas de um regime que valorizava o culto à personalidade deixaram o país com poucas instituições normais de governo.

"DELIRANTE"

Abdel Salam Jalloud, aliado que se bandeou para a oposição na semana passada, disse que Gaddafi planeja sumir e iniciar uma guerra de guerrilha. "Ele está doente pelo poder. Acredita que pode reunir seus seguidores e realizar ataques ... ele é delirante, acha que pode voltar ao poder."

Em uma declaração à imprensa, o porta-voz de Gaddafi, Moussa Ibrahim, ameaçou: "Vamos transformar a Líbia em um vulcão de lava e fogo sob os pés dos invasores e dos seus traiçoeiros agentes."

Mas, após várias deserções no regime nestes seis meses de guerra civil, outros partidários de Gaddafi parecem abandoná-lo. Os homens armados que impediam 40 estrangeiros, principalmente jornalistas, de deixarem o hotel Rixos, na capital, desistiram do cerco nesta quarta-feira.

Por outro lado, há claras ameaças de desordem generalizada. Quatro jornalistas italianos foram sequestrados perto de Zawiya, cidade que fica entre Trípoli e a Tunísia.

Autoridades ocidentais também temem que armas, inclusive mísseis antiaéreos e materiais nucleares aptos à produção de uma "bomba suja", poderiam ser levados dos arsenais de Gaddafi, caindo nas mãos de grupos hostis.

Impor a ordem e impedir a explosão de rivalidades entre as facções tribais, étnicas e ideológicas dos rebeldes são uma grande preocupação para os novos líderes e de seus apoiadores ocidentais, temerosos de que se repita a anarquia e violência vistas no Iraque depois da derrubada de Saddam Hussein.

Em reunião em Paris com o chefe do governo rebelde, Mahmoud Jibril, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, anunciou para a próxima quinta-feira uma reunião dos países "Amigos da Líbia" -- entre os quais estarão Brasil, Rússia e China, que criticaram a intervenção militar da Otan em favor dos rebeldes, e agora temem a perda de oportunidades econômicas junto ao novo governo.

Jibril disse que a data da conferência, coincidindo com o aniversário do golpe de 1969 que levou Gaddafi ao poder, seria um "novo símbolo para os líbios", empenhados agora na "batalha da reconstrução."

(Reportagem de Peter Graff, Ulf Laessing, Missy Ryan, Zohra Bensemra e Leon Malherbe, em Trípoli; de Robert Birsel, em Benghazi; de Hamid Ould Ahmed, em Argel; de Souhail Karam, em Rabat; de Richard Valdmanis, Christian Lowe e Giles Elgood, em Túnis; de Sami Aboudi, Dina Zayed e Tom Pfeiffer, no Cairo; de Catherine Hornby, em Roma; de Denis Dyomkin, em Sosnovy Bor; e de Chris Buckley, em Pequim)

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