Reformistas pedem investigação sobre líder supremo no Irã

A medida é um ato inédito, desafiando o homem mais poderoso do país, depois da repressão pós-eleitoral

AE-AP,

14 de agosto de 2009 | 17h50

Um grupo de ex-parlamentares reformistas apelou para que um poderoso painel de clérigos no Irã investigue a qualificação do líder supremo aiatolá Ali Khamenei para governar. A medida é um ato inédito, desafiando o homem mais poderoso do país, depois da repressão pós-eleitoral.

 

O pedido ocorre em meio à controvérsia, nesta sexta-feira, por alegações de que manifestantes detidos nos protestos foram torturados. Clérigos linhas-duras por todo o país exigiram que um alto líder reformista seja processado, por afirmar que alguns dos detidos foram abusados sexualmente por carcereiros.

 

A apelação dos ex-deputados foi feita para a Assembleia dos Especialistas, um painel de clérigos que, pela lei iraniana, tem o poder de nomear o líder supremo e, em teoria, também pode afastá-lo - ainda que isso nunca tenha ocorrido. Não houve ainda resposta do painel à carta do grupo, enviada no fim da quinta-feira.

 

Mesmo que o pedido seja ignorado e fique apenas como simbólico, é o desafio mais direto a Khamenei até o momento. O Irã teve uma disputada eleição em 12 de junho, que segundo partidários da oposição foi fraudada em favor do atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad.

 

A carta rompe com um tabu da classe política iraniana de evitar ataques a Khamenei, cuja posição como principal nome na hierarquia político-religiosa do país tem permanecido incontestada.

 

A carta, segundo sites da oposição, veio de um grupo de ex-parlamentares, a maioria deles do campo reformista. As notícias não informavam quantas pessoas subscreveram o texto.

 

O grupo denuncia duramente a repressão aos protestos, nos quais centenas de manifestantes e oposicionistas foram presos e, segundo a oposição, 69 pessoas foram mortas. Também é denunciado o julgamento, iniciado neste mês, de 100 políticos e ativistas acusados de tentar derrubar a República Islâmica, na onda de protestos pós-eleição.

 

A carta qualifica os júris como uma "corte stalinista" e afirma que a prisão Kahrizak - nas proximidades de Teerã, onde surgiram as denúncias de abuso - era pior que as prisões mantidas pelos Estados Unidos em Abu Ghraib e na Baía de Guantánamo.

 

Os ex-parlamentares afirmam que o líder supremo é responsável pelo sistema judicial e pelas forças de segurança responsáveis pela repressão. O texto cita a Constituição, segundo a qual "o líder supremo está no mesmo nível do resto das pessoas diante da lei".

 

A carta é endereçada ao aiatolá Akbar Hashemi Rafsanjani, um poderoso ex-presidente e clérigo, que preside a Assembleia dos Especialistas. Rafsanjani tomou partido da oposição na crise eleitoral, mas aceitar a investigação é aparentemente um passo muito grave para ele. Aproximadamente dois terços da assembleia de 86 membros são considerados partidários de Khamenei e se oporiam à medida.

 

O líder oposicionista Mir Hossein Mousavi não firmou o texto. Mousavi afirma ter ganhado a eleição.

 

Já a denúncia sobre os abusos nas cadeias foi feita pelo clérigo Mahdi Karroubi, um aliado de Mousavi. O presidente do Parlamento, Ali Larijani, negou as acusações, afirmando que uma investigação da Casa não validou essas acusações.

 

O clérigo conservador aiatolá Ahmad Khatami pediu uma investigação sobre Karroubi. "Nós esperamos que o sistema islâmico mostre uma resposta apropriada a isso." As informações são da Associated Press.

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