Refugiados palestinos trazem sonhos e traumas para o Brasil

Perseguidos e rejeitados em vários países, moradores do campo na Jordânia embarcam na quinta-feira

Jamil Chade, do Estadão,

17 de setembro de 2007 | 19h56

Ahmed quer ter um pedaço de terra, uma vaca e uma esposa brasileira. Ali Samir quer ser comerciante, Mohamed Sadi tem planos de abrir um restaurante e Issa pretende dar aulas de agronomia. Mas a maioria quer apenas viver.  Em tendas precárias no meio do deserto na fronteira entre a Jordânia e o Iraque, uma mistura de sonhos, planos, temores e dúvidas ocupam as mentes e olhares de cada um dos refugiados palestinos do Iraque que na próxima quinta-feira, 20, embarcam para o Brasil.  Assim é o campo de Ruwayshid, criado na Jordânia logo após a queda do regime de Saddam Hussein no Iraque em 2003 e que agora será fechado graças ao acordo estabelecido entre a ONU e o Brasil para que o País receba 117 refugiados. No horizonte, os jipes da polícia de fronteira e um silêncio quebrado apenas pelo vento e pelas crianças tentando transformar as pedras do sólo árido em um parque de diversões.  Ruwayshid funcionou como um dos centros da ONU para tentar dar uma solução provisória ao caos no Iraque. O local já chegou a ter mil pessoas e a perspectiva de encontrar uma pátria para esses palestinos é motivo de festa. "Aqui não temos vida. O Brasil nos dará vida", afirmou Mostafa Khaled, de apenas 18 anos.  No campo, a depressão dos últimos meses foi substituída pelo entusiasmo com a perspectiva da viagem. Muitos, porém, admitem que não sabem o que pensar sobre o Brasil e reconhecem que hesitaram em aceitar a proposta por causa da língua. "Mas logo ficou claro para todos que era isso ou nada"afirmou Anne Marie Deutschlander, oficial da ONU na Jordânia.  Vida nômade A tragédia vivida pelos palestinos que estão em Rawayshid não é nova em suas vidas. Muitos estão saindo de um país pela quarta ou quinta vez. Nos anos 80, esses refugiados foram recebidos pelo ditador Saddam Hussein em Bagdá, onde ganharam casas. Com a queda do regime, passaram a ser alvos das milícias xiitas e tiveram de fugir. Quatro anos depois, o acampamento com barracas acabou se tornando mais que um local provisório, já que poucos países os aceitavam. As barracas ganharam pequenos jardins para tentar recuperar a idéia de um lar, divisões no interior das tendas foram improvisadas para marcar o local da sala, quartos e cozinha. Alguns, como Ahmed Mustafa, ainda usaram de sua experiência como eletricista para montar cabos de TV, luz e um ventilador para tentar suportar o calor de 40 graus do deserto.  Depressão No campo, todos contam que a vida nos últimos quatro anos foi dura. Diarréia, falta de água, e desidratação foram problemas constantes. Durante o dia, as ondas de calor não poupavam os palestinos. Pela noite, nem todos tinham roupas suficientes para agüentar o frio que faz no deserto. Isso sem contar com tempestades de areia. Mas todos concordam que o pior sofrimento foi mesmo psicológico. Segundo os funcionários da ONU que estiveram no local nos últimos anos, o pior momento do campo foi quando o governo canadense anunciou em 2006 que iria dar asilo para os palestinos, mas que aceitaria apenas cerca de 50.  Os que não foram selecionados para deixar o local se sentiram rejeitados e a depressão tomou conta do campo diante de mais um abandono. Um deles até sofreu um ataque cardíaco e não sobreviveu. "Ele não suportou a informação que recebeu", afirmou Rashida Uma Adnana, mãe da vítima e que está hoje sozinha no campo com 75 anos. "Sou corajosa e sei que poderei me adaptar ao Brasil. Afinal de contas, já é a quinta vez que mudo de país", afirmou.  Realidade Entre os funcionários mais experientes do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), os alertas são de que muitos dos sonhos serão difíceis de se realizar. "Não podemos criar o sentimento de que o Brasil seja o paraíso. Mas não podemos impedir que as pessoas sonhem, depois de quatro anos vivendo em uma tenda no deserto. A integração pode ser um processo lento, serão anos de aprendizagem", afirmou um dos funcionários da ONU.

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