SAIBA MAIS-Por que Ocidente está cauteloso com proposta do Irã?

O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) poderá votar nesta semana pela imposição de uma quarta rodada de sanções ao Irã, apesar da proposta iraniana de enviar parte de seu material nuclear ao exterior.

SYLVIA WESTALL, REUTERS

08 de junho de 2010 | 16h02

Nesta terça-feira, o presidente Mahmoud Ahmadinejad pediu que a Rússia não apoie as sanções, mas talvez seja muito tarde para isso. O Irã afirmou que deverá retirar sua proposta da mesa de negociações caso sejam impostas novas sanções.

Abaixo, alguns dados sobre a proposta e os motivos pelos quais o Ocidente está tratando com ceticismo e ainda quer impor sanções para pressionar o Irã por causa do enriquecimento nuclear visto como uma trilha para o desenvolvimento de armas.

O QUE É A PROPOSTA DO IRÃ?

Mediado pelo Brasil e pela Turquia no mês passado, o acordo prevê a transferência pelo Irã de 1.200 quilos de urânio pouco enriquecido (LEU) --o suficiente para uma bomba atômica caso seja enriquecido para um nível alto-- à Turquia dentro de um mês.

Em troca, um ano depois, o país obteria bastões de combustível nuclear especiais para um reator de pesquisa médica que fabrica isótopos para ajudar a tratar pacientes com câncer.

POR QUE O OCIDENTE ESTÁ CAUTELOSO COM RELAÇÃO A ESSA PROPOSTA?

- INTERVALO DE TEMPO

Autoridades ocidentais afirmam que o cenário mudou desde que concordaram com um plano similar entre o Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em outubro do ano passado, como uma forma de adiar o ponto onde o Irã teria a capacidade de desenvolver uma bomba.

O plano também previa o envio pelo Irã de 1.200 quilos de LEU ao exterior. A quantidade representava naquela época quase 70 por cento da reserva conhecida do país.

Desde então, o Irã aumentou seus estoques. Atualmente, a retirada de 1.200 quilos ainda deixaria o Irã com material físsil suficiente para uma bomba, caso o país quisesse desenvolver uma.

Teerã afirma não ter a intenção de usar o enriquecimento para fabricar armas e que a atividade tem apenas como propósito a geração de eletricidade.

Alguns observadores afirmam que a troca ainda valeria a pena, porque retiraria do país metade do estoque declarado pelo Irã. Outros dizem que o acordo já não tem valor, porque o risco permaneceria e ele não consegue indicar confiança nas intenções nucleares do Irã.

- ENRIQUECIMENTO EM MAIOR ESCALA

O Irã também começou a refinar urânio a níveis mais altos em fevereiro, afirmando que tinha a intenção de produzir combustível para o reator. Mas a medida causou preocupação entre as potências ocidentais porque deixa o material mais perto do grau de pureza necessário para as armas atômicas.

Teerã afirmou que tomou a iniciativa porque estava cansado de esperar a aprovação do acordo original. Autoridades ocidentais afirmam que foi o Irã quem barrou o progresso ao impor uma série de condições novas para a troca, que sabia que não seriam aceitas.

O Irã prometeu que não vai parar de enriquecer a um grau mais elevado, mesmo que o acordo de troca de combustível vingue e começou a preparar mais equipamentos para tanto.

Diplomatas ocidentais classificaram a recusa de interromper o enriquecimento a um grau mais elevado como um impeditivo para um acordo. Eles também questionam os motivos pelos quais o Irã ainda precisaria prosseguir com esse processo, já que os países estão dispostos a dar à República Islâmica os bastões de combustível necessários.

Eles afirmam que falta ao Irã a capacidade para produzir a estrutura especializada do combustível no curto prazo. Assim, faz pouco sentido produzir mais urânio altamente enriquecido para um reator que, segundo Teerã, ficará sem combustível até o fim do ano.

- AUSÊNCIA DE DETALHES

Diferentemente do plano da AIEA, mediado pelo ex-diretor da agência Mohamed ElBaradei, a nova proposta não inclui o detalhamento sobre quem produziria os bastonetes de combustível, quem pagaria pelo processo e o que aconteceria com o LEU armazenado na Turquia após finalizada a troca, afirmam as autoridades ocidentais.

Sem esse tipo de informação, eles afirmam que não podem negociar seriamente sobre a oferta do Irã, vista por muitos deles como uma tentativa de barrar as negociações sobre as sanções.

- PANORAMA AMPLIADO

Diplomatas também afirmam que, com a promoção da nova proposta, o Irã tenta passar a impressão de que o acordo de combustível está no centro dos problemas com o Ocidente, e não as ambições nucleares do país como um todo.

Eles admitem que o plano original da AIEA sempre foi ser um primeiro passo para resolver a questão nuclear ao se ganhar tempo para as negociações, e não uma solução.

Mas eles afirmam que a falta de cooperação do Irã com a agência em questões sobre o programa atômico e a demora do país em aprovar o acordo de combustível deixaram os negociadores desconfiados.

Eles também temem que o Irã não cumpra com sua palavra.

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