Secretário dos EUA apela a curdos para salvar Iraque do colapso

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, participou de negociações com líderes da região autônoma curda do Iraque nesta terça-feira e lhes pediu que fiquem ao lado de Bagdá num momento em que o avanço dos insurgentes sunitas ameaça desmembrar o país.

LESLEY WROUGHTON, REUTERS

24 de junho de 2014 | 12h35

As forças de segurança entraram em conflito com facções armadas sunitas pelo controle da maior refinaria de petróleo do país nesta terça e os militantes lançaram um ataque contra uma das maiores bases aéreas do país, a menos de 100 quilômetros da capital.

Mais de 1.000 pessoas, na maioria civis, foram mortas em menos de três semanas, disse a ONU nesta terça-feira.

As vítimas incluem soldados do governo desarmados, que foram metralhados por insurgentes e jogados em valas comuns, bem como vários relatos sobre presos mortos em suas celas por forças do governo em fuga.

Kerry voou para a região curda após passar um dia em Bagdá, em uma viagem de emergência pelo Oriente Médio para tentar salvar a unidade do Iraque depois de um avanço-relâmpago dos combatentes sunitas liderados por um ramo da Al-Qaeda, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL).

Autoridades norte-americanas acreditam que convencer os curdos de ficar ao lado do processo político em Bagdá é vital para evitar a divisão do Iraque.

"Se eles decidirem retirar-se do processo político de Bagdá, as tendências negativas vão ser muito aceleradas", disse uma autoridade do Departamento de Estado, que falou com jornalistas sob condição de anonimato.

Líderes curdos deixaram claro que um acordo para manter o Iraque unido está em perigo.

"Estamos diante de uma nova realidade e de um novo Iraque", disse o presidente curdo, Massoud Barzani, no início de sua reunião com Kerry. Mais cedo, ele culpou as "políticas erradas" do primeiro-ministro Nuri al-Maliki pela violência e pediu que ele deixasse o governo, dizendo ser "muito difícil" imaginar o Iraque unido.

Os cinco milhões de curdos, que se autogovernavam no Iraque em relativa paz desde a invasão dos Estados Unidos que derrubou Saddam Hussein, em 2003, aproveitaram o caos deste mês para expandir seu próprio território, assumindo o controle de ricos campos de petróleo.

Dois dias depois de os combatentes sunitas iniciarem a sua revolta, controlando a maior cidade do norte, Mosul, as tropas curdas assumiram o controle total de Kirkuk, uma cidade que consideram sua capital histórica e que foi abandonada pelo Exército iraquiano em fuga.

A dominação de Kirkuk, que fica fora da zona autônoma curda, elimina o principal incentivo para que eles continuem a fazer parte do Iraque: os depósitos de petróleo de Kirkuk podem gerar mais receita do que os curdos agora recebem de Bagdá, como parte do acordo feito para que não declarem a independência.

Algumas autoridades curdas sugerem em conversas privadas que já não estão comprometidas com o Iraque e estão ganhando tempo para uma oportunidade de buscar a independência. Em entrevista à CNN, Barzani repetiu uma ameaça de realizar um referendo sobre a independência, dizendo que é hora de os curdos decidirem seu próprio destino.

NOVO GOVERNO

O governo norte-americano colocou suas esperanças na formação de um novo governo, mais inclusivo, em Bagdá, que prejudicaria a insurgência. Kerry tem como objetivo convencer os líderes curdos a participarem do processo.

Em Bagdá, Kerry disse na segunda-feira que Maliki lhe assegurou que o novo Parlamento, eleito há dois meses, iria começar a formar um novo governo antes de 1 de julho. Maliki está lutando para permanecer no poder, sob críticas devido ao avanço do EIIL.

O governo iraquiano está correndo contra o tempo enquanto os insurgentes consolidam seu controle sobre as províncias de maioria sunita.

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