Seguidores de Gaddafi enfrentam forças do novo governo

Combatentes leais a Muammar Gaddafi lançaram na sexta-feira uma chuva de foguetes e morteiros para repelir um ataque das forças do governo provisório da Líbia contra um dos seus últimos redutos, e para conter seus avanços em outro.

MARIA GOLOVNINA E ALEXANDER DZIADOSZ, REUTERS

16 Setembro 2011 | 17h54

O dia em Bani Walid, 180 quilômetros ao sul de Trípoli, começou com a expectativa de um fim do cerco à cidade e da captura de membros importantes do antigo regime, mas terminou com os combatentes do governo batendo em retirada diante de uma resistência estimada em centenas de homens bem armados.

De acordo com combatentes leais a Gaddafi, várias baixas foram registradas entre as forças do governo e que a batalha está longe de ter terminado.

Longe dali, na litorânea Sirte, terra natal de Gaddafi, as forças do Conselho Nacional de Transição (CNT) endureceram o cerco contra bolsões de resistência espalhados pela cidade, mas não há sinal de fim iminente do confronto, que já dura semanas.

Quase quatros semanas depois da tomada de Trípoli pelos rebeldes, o revés em Bani Walid é um duro golpe para a nova liderança, que decidiu esperar até que toda a Líbia esteja "liberada" antes de começar a executar o seu cronograma para a redação de uma Constituição democrática e a convocação de eleições.

"Recebemos ordens para recuar. Fomos atingidos por muitos foguetes. Vamos voltar depois," disse o combatente Assad al Hamuri em meio à frenética retirada de Bani Walid, marcada por gritos, raiva e frustração.

"Precisamos reorganizar as tropas e estocar munição," disse outro combatente, Saraj Abdelrazaq. "Estamos esperando ordens para voltar depois."

Esse vaivém na ofensiva é um padrão familiar desde fevereiro, quando teve início a rebelião armada que levou ao fim dos 42 anos de regime de Gaddafi. Apesar de ainda não terem conseguido controlar todo o território --nem capturar Gaddafi e vários de seus filhos--, os novos dirigentes tentam regularizar a vida no país.

Na sexta-feira, um dia depois de eles receberem a visita dos chefes de governo da França e Grã-Bretanha, foi a vez de o primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan, desembarcar em Trípoli.

Erdogan ostentou suas credenciais de líder islâmico e participou, junto com o presidente interino Mustafa Abdel Jalil, das preces da sexta-feira na praça dos Mártires (ex-praça Verde), outrora a grande "vitrine" de Gaddafi.

Ele disse que o destino de Gaddafi deve servir de alerta para o regime da Síria, país vizinho ao seu, e conclamou a população de Sirte a se render pacificamente. "Venham, agora mesmo... Abracem seus irmãos em Trípoli. O derramamento de sangue não tem a ver conosco. Vamos nos unir," disse.

Embora alguns líbios se queixem da hesitação inicial de Ancara em aderir à ação militar da Otan em prol dos rebeldes, muitos veem a Turquia --um país muçulmano e democrático, que colonizou a Líbia na época do Império Otomano-- como um modelo a ser seguido.

"Talvez seja do interesse dele," disse Mawloud Mohammed Zgalli, 84 anos, que esperava o discurso de Erdogan. "Ele é um homem decente, mas ajudou os muçulmanos. É preciso agradecê-lo."

FOGO PESADO

Em Bani Walid, uma correspondente da Reuters viu os combatentes anti-Gaddafi deslocando-se sob disparos de morteiros, foguetes e fraco-atiradores, e avançando casa e casa, parando para se proteger atrás de muros. O mercado central e o castelo em estilo antigo erguido por Gaddafi no alto de um morro estão fortemente defendidos.

Muitos dos 100 mil habitantes de Bani Walid fugiram nos últimos dias.

Também não está claro quantos civis permanecem em Sirte, uma vasta cidade de tamanho semelhante, que décadas atrás era apenas uma modesta aldeia, mas que Gaddafi pretendia transformar em uma "capital da África."

Combatentes do CNT, que levaram várias caminhonetes equipadas com metralhadoras e alguns tanques para lá, disseram haver bolsões esparsos de combatentes gaddafistas fortemente armados.

Não é possível manter contato com os partidários de Gaddafi dentro dessas duas cidades e em Sabha, nos confins do Saara, também controlada pelos partidários do regime deposto.

Os detalhes sobre o desenrolar dos fatos em Sabha são escassos, mas um porta-voz militar britânico disse que jatos da Grã-Bretanha dispararam mais de 20 mísseis Brimstone para destruir um grupo de blindados nessa região na quinta-feira.

(Reportagem adicional de William MacLean e Joseph Logan, em Trípoli; Sherine El Madany, em Ras Lanuf; Emma Farge, emBenghazi; Philippa Fletcher e Giles Elgood, em Londres; Barry Malone e Sylvia Westall, em Tunis, e Bate Felix)

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