Síria é a chave para a estabilidade do Oriente Médio

País tem suas mãos envolvidas em quase todos os conflitos na região: Líbano, Iraque, Irã e Israel

Gustavo Chacra, de O Estado de S. Paulo,

06 de dezembro de 2008 | 15h58

Os sírios podem tanto queimar a bandeira dos EUA no centro de Damasco como, dias depois, comprar camisetas com o nome de Barack Obama escrito em árabe nos mercados da capital síria. São reflexos das duas faces de um país que é visto como chave para a paz no Oriente Médio, pois tem suas mãos envolvidas em quase todos os conflitos na região - Líbano, Iraque, Irã e Israel -, na maior parte das vezes como um Estado que apóia o terrorismo, seja do grupo radical palestino Hamas ou do xiita libanês Hezbollah.   Esses contrastes fazem parte de um regime que hoje tem dificuldade para se encaixar dentro do Oriente Médio. Há décadas governado pelo Partido Baath, os sírios ainda mantêm um discurso que, de acordo com o escritor alemão Carsten Wieland, autor do livro Syria at Bay ("Síria Sem Saída", numa tradução livre), está mais próximo dos tempos da Guerra Fria do que da guerra ao terror.   "Os sírios são mais Che Guevara do que Bin Laden", escreveu. A Síria é, ao lado do Líbano, o país árabe menos religioso. Em alguns momentos, é mais fácil comparar a Síria à Venezuela do que ao Irã.   A vitória de Obama na eleição presidencial americana abre a possibilidade de Washington quebrar o gelo e aproximar-se de Damasco - pelo menos essa é a expectativa do regime comandado pelo presidente Bashar Assad.   Visto como a ovelha negra do mundo árabe, especialmente após a queda de Saddam Hussein e o mea-culpa do líbio Muamar Kadafi, o regime sírio tem três objetivos em sua política externa. O primeiro é recuperar as Colinas do Golan, ocupadas por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967) e anexadas em ato considerado ilegal pela ONU nos anos 80.   A área tem importância estratégica por causa das grandes reservas de água. A Síria atravessa uma das maiores secas de sua história. Além disso, trata-se de uma questão de orgulho nacional. A questão militar, de acordo com Wolfgang Jilke, comandante da Undof (forças de observação da ONU) no Golan, não é importante, pois Israel não depende do território para defender-se dos sírios.   O segundo objetivo é retomar o domínio político sobre o Líbano, perdido com a retirada das tropas em 2005, após atentado que matou o então líder anti-Síria Rafik Hariri. Hoje, os sírios exercem sua influência por meio da oposição liderada pelo Hezbollah e seus aliados cristãos. Contudo, não se compara à força que o país possuía até quatro anos atrás.   Por último, os sírios querem acabar de vez com o isolamento internacional por que passa o país nos últimos anos, quando, sem muitas opções, foi obrigado a estreitar suas relações com o Irã.

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