Sob cerco, Gaddafi aumenta salários; Conselho da ONU fará reunião

A cidade líbia de Zawiyah passou nesta sexta-feira ao controle de manifestantes contrários ao governo de Muammar Gaddafi, segundo uma testemunha, o que significa que a rebelião popular contra o regime de mais de quatro décadas chegou a 50 quilômetros da capital Trípoli.

TOM PFEIFFER E MOHAMMED ABBAS, REUTERS

25 de fevereiro de 2011 | 10h39

Em outro sinal de desmoronamento do governo, o procurador-geral Abdul-Rahman al Abbar renunciou, seguindo o exemplo de outros membros do regime, e disse à TV Al Arabiya que aderiu à oposição.

Na primeira iniciativa concreta para tentar obter o apoio dos cidadãos contra a rebelião iniciada na semana passada, o governo anunciou pela TV estatal um aumento de salários e de subsídios alimentares, e um bônus especial para todas as famílias.

A alta comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, disse que "milhares" de pessoas podem ter sido mortas ou feridas desde o início da revolta, e defendeu uma intervenção internacional para proteger os civis.

O Conselho de Segurança da ONU vai se reunir nesta sexta-feira para discutir possíveis sanções ao regime líbio, que luta por sua sobrevivência depois de perder o controle sobre áreas importantes do país, inclusive Benghazi, a segunda maior cidade, no leste.

Na rede social Facebook, mais de 85 mil pessoas aderiram a duas páginas que convocam grandes manifestações na Líbia depois das preces da sexta-feira, as mais importantes da semana islâmica.

As tropas de Gaddafi ainda controlam Trípoli, depois de reprimirem duramente os manifestantes dias atrás. Moradores dizem que só saem de casa quando precisam procurar mantimentos.

Zawiyah, um centro de refino de petróleo 50 quilômetros a oeste da capital, está totalmente nas mãos dos rebeldes, um dia depois de ser atacada por forças de segurança, segundo Saeed Mustafa, que passou de carro pela cidade na manhã de sexta-feira, a caminho da Tunísia.

"Há postos de controle do Exército e da polícia em torno de Zawiyah, mas não há presença (de soldados) dentro da cidade. Só vi alguns poucos civis desarmados", disse ele à Reuters depois de cruzar a fronteira.

Na cidade de Adjabiya (leste), policiais e militares disseram à TV Al Jazeera que abandonaram seus quartéis e aderiram à oposição.

Há relatos também de que a cidade de Misratah, a terceira maior do país, também está sob controle dos rebeldes.

Comitês populares foram formados para gerir as cidades rebeldes, com a participação de advogados, médicos, anciãos tribais e oficiais militares. Aparentemente, não há presença de radicais islâmicos nesses comitês.

A rebelião líbia é parte da onda de revoltas que tem varrido o Oriente Médio e o norte da África nos últimos dois meses, e que já levou à queda dos líderes na Tunísia e Egito.

PETRÓLEO

Abdessalam Najib, engenheiro da petrolífera líbia Agico e integrante do governo provisório de Benghazi, afirmou que os rebeldes controlam também praticamente todos os campos petrolíferos a leste do importante terminal de Ras Lanuf.

O juiz Jammal bin Nour, também participante da coalizão rebelde, disse que os contratos com empresas petrolíferas estrangeiras serão cumpridos, desde que sejam "legais e benéficos ao povo líbio".

O Bank of America Merrill Lynch disse que a produção petrolífera da Líbia deve parar totalmente, talvez por um longo período.

O petróleo do tipo Brent teve na sexta-feira alta superior a 1 dólar no mercado futuro, chegando a cerca de 112 dólares por barril. Na quinta-feira, o valor chegou a quase 120 dólares, mas caiu depois da a Arábia Saudita assegurar que iria compensar eventuais interrupções na produção líbia.

Na noite de quinta-feira, o presidente dos EUA, Barack Obama, fez consultas aos líderes da França, Grã-Bretanha e Itália para discutir ações coordenadas. O Conselho de Segurança da ONU recebeu na sexta-feira uma proposta de resolução franco-britânica, que só deve ser votada em meados da semana que vem, segundo diplomatas.

A chanceler francesa, Michele Alliot-Marie, disse que o texto prevê um embargo armamentista, sanções financeiras e um pedido ao Tribunal Penal Internacional para que indicie líderes líbios por crimes contra a humanidade.

Mas o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, disse que a aliança militar ocidental ainda não discutiu a possibilidade de impor uma zona de exclusão aérea para proteger as áreas rebeldes de bombardeios do governo.

A prioridade dos governos estrangeiros até agora tem sido retirar seus cidadãos da Líbia. A imprensa oficial chinesa disse que Pequim já retirou 12 mil chineses da Líbia -- cerca de um terço do total.

Em um telefonema na quinta-feira à TV estatal, Gaddafi acusou o líder da Al Qaeda, Osama bin Laden, de estar por trás da revolta. Ele disse também que os manifestantes agem sob o efeito de alucinógenos misturados ao café com leite.

Dois dias antes, ele havia prometido na televisão que iria esmagar a revolta e morrer como "mártir" sem deixar a Líbia.

Na sexta-feira, a TV estatal anunciou que cada família receberá um bônus de 500 dinares (400 dólares) para compensar a alta no preço dos alimentos, e que os salários de alguns funcionários públicos terão elevação de 150 por cento.

Enquanto diversos membros do regime -- inclusive ministros e embaixadores -- abandonam Gaddafi, o governo suíço disse que irá congelar bens do ditador e da sua família.

A chancelaria líbia negou que o ditador tenha contas na Suíça, e prometeu processar o governo suíço por fazer tal acusação.

O jornal britânico Daily Telegraph disse ter apurado junto a fontes não-identificadas que a Grã-Bretanha pode embargar mais de 30 bilhões de dólares mantidos pelo regime líbio no país.

(Reportagem de Alexander Dziadosz e Ali Abdelatti no Cairo; Amena Bakr em Riad; Michael Georgy na fronteira da Tunísia; Stephanie Nebehay e Robert Evans em Genebra)

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