Arte/estadao.com.br
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Tática em Gaza causou morte de civis, admite militar israelense

Investigadores da ONU acusam Israel de usar crianças como escudo na operação que matou 1,4 mil palestinos

Reuters

23 de março de 2009 | 18h57

A intenção israelense de proteger seus soldados na recente guerra da Faixa de Gaza pode ter contribuído para mortes de civis inocentes, disse nesta segunda-feira, 23, um general que participou da ofensiva. Após enfrentar a condenação mundial devido ao número elevado de mortes no conflito de janeiro, Israel agora está sob pressão para justificar sua conduta, depois de na semana passada veteranos do conflito sugerirem que houve um desrespeito frequente e muitas vezes letal pelos inocentes.

 

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O general-de-brigada Tzvika Fogel, que foi mobilizado da reserva para participar da ofensiva de 22 dias, descreveu que era praxe considerar como potencial guerrilheiro do Hamas qualquer um que desobedecesse às ordens dos militares para deixar a zona de combate. Ele ressalvou que, antes de atirarem, os soldados deveriam ter uma opinião "razoável" de que a pessoa diante deles seria uma ameaça. Mas acrescentou: "Se você quer saber se eu acho que ao fazê-lo matamos inocentes, a resposta é inequivocamente sim".

"Seria muito desonesto da minha parte se eu lhe dissesse que isso era impossível", disse ele por telefone à Reuters. "Mas, se houve tais incidentes, eles foram excepcionais. Não era o clima geral nem a política (oficial)". O Centro Palestino para os Direitos Humanos, que diz ter identificado todos os mortos, afirma que o conflito matou 1.417 palestinos, sendo 926 civis, inclusive 313 crianças e 116 mulheres. Muitos civis, de acordo com a entidade, morreram em bombardeios aéreos ou da artilharia israelense.

Os militares não forneceram cifras próprias. Uma entidade palestina vinculada às Forças Armadas alegou que a cifra de civis apresentada pelos palestinos inclui um grande número de jovens em idade de combate. Militares disseram na semana passada à imprensa israelense que havia um desrespeito generalizado pela segurança dos civis palestinos. Um deles afirmou que um atirador matou uma mulher e duas crianças que saíram do caminho determinado. Oficiais disseram que o soldado que fez tal denúncia não presenciou o fato.

Richard Kemp, coronel britânico reformado que comandou forças no Iraque e no Afeganistão, disse compreender as táticas de Israel em Gaza, mas afirmou que em longo prazo a credibilidade dos militares depende de levar à Justiça eventuais violadores das leis de guerra. "O combate é uma situação muito estranha. Mas não acho que se possa dizer que, por causa disso, deve-se aceitar que as regras sejam violadas", disse Kemp à Reuters em Londres.

 

Relatório

 

Ainda nesta segunda, investigadores da ONU disseram que Israel violou diversos direitos humanos na recente invasão da Faixa de Gaza, o que inclui atacar civis e usar uma criança como escudo humano. As acusações constam em relatórios submetidos ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, que exigiram também um fim imediato às restrições israelenses para o abastecimento humanitário de Gaza e uma investigação internacional sobre o conflito.

"Alvos civis, particularmente casas e seus ocupantes, parecem ter recebido o grosso dos ataques, mas escolas e instalações médicas também foram atingidas", disse o relatório assinado por Radhika Coomaraswamy, representante especial do secretário-geral para a questão da infância nos conflitos armados.

A advogada nascida no Sri Lanka, que visitou a região no começo de fevereiro, citou diversos incidentes para corroborar suas acusações. Num deles, contou a relatora, soldados israelenses alvejaram um pai de família após ordenarem que ele saísse da casa, e em seguida dispararam contra o cômodo onde o resto da família se abrigava, ferindo a mãe e três irmãos, e matando um quarto.

Em outro incidente, em 15 de janeiro, na localidade de Tal Al Hawa, a sudoeste da Cidade de Gaza, soldados israelenses forçaram um menino de 11 anos a andar várias horas adiante deles pela cidade, mesmo depois de o grupo ser alvejado. As declarações de Coomaraswamy fazem parte de um relatório muito mais longo, de autoria de nove investigadores da ONU, inclusive especialistas nos direitos a saúde, alimentação, habitação e educação, ou em questões de execuções sumárias e violência contra mulheres.

 

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