Temor de guerra civil toma conta de 2a maior cidade do Líbano

As lojas fecharam as portas e osveículos desapareceram das ruas da segunda maior cidade doLíbano, Trípoli, na segunda-feira, quando começaram a seenfrentar os combatentes sunitas aliados do governo e osintegrantes da minoria alauíta, partidária da Síria. "Ninguém mais sabe o que vai acontecer em Trípoli. Todas asseitas e todos os líderes políticos formaram milícias. Qualquerum pode ser parado na rua e obrigado a mostrar sua identidade",disse à Reuters Saleh Aref, enquanto fechava a porta de sualoja de acessórios. A histórica cidade, famosa por seu castelo dos cruzados,pelo mercado árabe e por seus doces típicos, é o palco maisrecente de um conflito que já matou mais de 80 pessoas noLíbano nos últimos seis dias. Trípoli é uma cidade de maioria sunita, com laçoscomerciais e familiares com a Síria. Alguns poucos milhares dealauítas moram no bairro de Jebel Mohsen, em uma colina.Vilarejos cristãos abrigam-se nas proximidades, aos pés dacadeia de montanhas Cedro. Milicianos alauítas trocaram granadas lançadas por foguetee disparos de metralhadora com combatentes sunitas pró-governono bairro de Bab Tebbaneh, perto do mar. Seis pessoas ficaramferidas. "Não queremos uma guerra sectária, mas se eles quiserem,nós estamos prontos. Somos libaneses, mas temos orgulho denossos laços com a Síria", afirmou Saleh Abdul Latif, líder dobairro alauíta. O sentimento encontrou eco do outro lado, onde os sunitasacusam os alauítas de tentar reintroduzir a influência síriasobre o Líbano, que atingiu seu grau máximo entre o final daguerra civil, em 1990, e 2005, quando as forças sírias deixaramo território libanês. Bashar al-Assad, presidente da Síria, é alauíta. SEM FIM À VISTA "Trípoli caminha rumo a um massacre se os alauítas nãodepuserem suas armas. Não estou dizendo que todos os alauítassão agentes sírios, mas eles deveriam agir de forma a evitarnovos derramamentos de sangue", afirmou um engenheiro que nãoquis ter sua identidade revelada. O Exército libanês interrompeu as principais vias de acessoà área dos combates. No entanto, os militares não teriam podersuficiente para acabar com os enfrentamentos. Milicianos podiamser vistos percorrendo as ruas, com as armas à mostra. "Nossos olhos estão voltados para o xeique Saad", gritou umcombatente, referindo-se a Saad al-Hariri, líder do atual blocomajoritário do Parlamento libanês e filho doex-primeiro-ministro Rafik al-Hariri, cujo assassinato, em2005, atirou o país em uma crise política. O ex-premiê mantinha em Trípoli uma disputa com a famíliaKarami, aliada da Síria e do Hezbollah. O líder dessa família, Rashid Karami, afirmou que a tomadade Beirute pelo Hezbollah e seus aliados não se repetiria emTrípoli. Karami pediu que os combatentes de seu grupo saíssemdas ruas. No entanto, poucos prevêem que a paz estabeleça-se dentroem breve e muitos temem uma repetição da guerra civil (iniciadaem 1975). "A atmosfera é de guerra civil, mas o nome dos envolvidos édiferente," disse um gerente da loja de doces Hallab, conhecidapor seus produtos desde 1881. "Antes, em Trípoli, eram os sunitas contra as milíciascristãs", afirmou. "Agora são os sunitas contra os alauítas.Isso não acaba nunca."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.