Terra revela ossos, tristeza e dor em local de massacre líbio

Os novos governantes da Líbia revelaram ter encontrado um cemitério clandestino onde, segundo eles, estão os corpos de mais de 1.270 pessoas assassinadas pelas tropas de segurança de Muammar Gaddafi, durante um massacre ocorrido em 1996, na prisão Abu Salim, em Trípoli.

JOSE, REUTERS

25 Setembro 2011 | 18h03

O massacre de 16 anos atrás foi encoberto durante anos, mas, em última análise, ajudou a derrubar Gaddafi, porque a rebelião que pôs fim ao seu governo nasceu da raiva em relação às mortes em Abu Salim.

"Estou feliz por essa revolução ter sido bem sucedida, e que o nosso país será melhor", disse Sami al-Saadi, de 45 anos, que acha que dois dos seus irmãos morreram no massacre.

"Allahu akbar (Deus é maior)!", gritavam rebeldes anti-Gaddafi que se aproximavam do local. Vários depuseram suas armas e rezaram a oração muçulmana pelos mortos, antes de se aventurarem entre os restos desenterrados.

Autoridades disseram que os restos dos mortos estavam espalhados em um terreno de 1.000 por 1.000 metros e que haviam sido desenterrados de dentro da prisão e enterrados do lado de fora dela, em 2000.

"Estamos lidando com mais de 1.200 mártires e precisamos identificar cada um deles, comparando o seu DNA com o de seus familiares", disse o médico legista Osman Abdul Jalil. "Isso pode levar anos."

O derramamento de sangue na prisão que fica em um bairro da capital conhecido pela sua lealdade a Gaddafi, ganhou um significado representativo para os novos governantes da Líbia. A revolta deles contra o líder deposto começou quando familiares dos presos mortos em Abu Salim fizeram manifestações na cidade de Benghazi, exigindo a libertação de seu advogado.

Detentos se rebelaram contra seus carcereiros em junho de 1996 e foram mortos por forças lideradas por aliados próximos a Gaddafi, de acordo com relatos de ex-detentos que reapareceram desde então.

TENENTES DE GADDAFI "DIRIGIRAM O MASSACRE"

Abdel Wahhab al-Qa'id, que as autoridades apresentaram como um dos sobreviventes de Abu Salim, disse aos jornalistas que as forças de Gaddafi não atiraram nele, porque ele havia sido ferido antes da execução em massa.

Ele disse que os assassinos foram dirigidos pelo chefe da inteligência de Gaddafi, Abdullah al-Senussi, e por Abdallah Mansour, um alto oficial da inteligência, que também controlavam as divulgação das informações da Líbia.

"Quando eles me levaram para fora na maca, Abdallah Mansour estava gritando 'os tiros estão chegando'", disse ele.

Khaled al-Shariif, porta-voz do Conselho Militar de Trípoli, disse que os investigadores haviam encontrado o local há cerca de duas semanas, baseados em informações dadas por pessoas que haviam sido detidas por suspeita de envolvimento no massacre.

"Os grupos que fizeram a matança, ou que participaram de alguma forma, estão sob custódia dos revolucionários, confessaram e nos levaram até o local", disse ele a jornalistas.

Desde a derrubada de Gaddafi no mês passado, cerca de 13 lugares foram identificados como covas coletivas. Como elas foram criadas ainda gera discussões e explicações conflitantes, até mesmo no Conselho Nacional de Transição, que assumiu o governo da líbia após a queda de Gaddafi.

A Human Rights Watch pressionou o conselho para parar as escavações nesses locais, alertando que a exumação sem as técnicas forenses apropriadas poderia tornar a identificação dos corpos impossível.

"Não temos experiência nisso", disse Ibrahim Abu Shima, membro de um comitê do conselho de transição encarregado de cuidar de possíveis covas coletivas. Segundo ele, a estimativa de mortos foi feita pela comparação dos registros da prisão com sobreviventes conhecidos.

"Precisamos de ajuda para cavar, remover corpos e restos mortais, sem misturá-los."

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