EFE/EPA/STRINGER
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Tiroteio em aeroporto de Cabul deixa soldado afegão morto

Um oficial da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) relatou ao menos 20 mortes nos últimos sete dias dentro ou nos arredores do aeroporto

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 02h19
Atualizado 23 de agosto de 2021 | 10h39

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pode prolongar a presença das tropas americanas no aeroporto de Cabul, onde um guarda afegão morreu nesta segunda-feira, 23, em um tiroteio entre soldados e homens não identificados em plena operação de retirada de civis.

"Esta manhã, às 4h13, aconteceu uma troca de tiros entre guardas afegãos e criminosos não identificados", afirmou o exército da Alemanha. Em mensagem no Twitter informa ainda que soldados alemães e americanos participaram em "tiroteios posteriores".

Várias pessoas morreram em circunstâncias não explicadas nas imediações do aeroporto, onde prosseguem as complexas operações de retirada. Diante das dificuldades, Biden citou a possibilidade de continuidade no local após 31 de agosto.

"Há conversas em curso entre nós e os militares sobre uma extensão. Esperamos não ter que prorrogar, mas teremos discussões, suponho, sobre o estado do processo de retirada", afirmou no domingo à noite.

Desde que assumiu o poder no Afeganistão em 15 de agosto, o Taleban tenta convencer a população de que seu regime será menos brutal que o anterior, entre 1996 e 2001. Mas suas promessas não conseguem reduzir o desejo de milhares de pessoas de fugir do país.

O governo dos Estados Unidos já retirou quase 30.300 pessoas desde 14 de agosto, informou no domingo a Casa Branca, que espera retirar do país 15.000 americanos e de 50.000 ou 60.000 afegãos. Os países ocidentais já retiraram outros milhares de cidadãos.

No domingo, o chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Josep Borrell, considerou "impossível" retirar todas as pessoas até 31 de agosto.

Para Entender

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Para reforçar a operação de retirada, Washington ordenou a seis grandes companhias aéreas comerciais que transportem para os Estados Unidos as pessoas retiradas de Cabul que estão em bases americanas no Golfo e na Europa.

Embora a retirada do Afeganistão provoque temores em outros aliados dos Estados Unidos, a vice-presidente Kamala Harris prometeu nesta segunda-feira, durante uma visita a Singapura, um "compromisso duradouro" de seu país na Ásia.

Ruas de Cabul em relativa calma 

As imagens impactantes no aeroporto, que incluem bebês e crianças entregues a soldados entre muros com arame farpado e homens pendurados em aviões em plena decolagem, rodaram o mundo.

"Não há maneira de retirar tantas pessoas sem dor nem perdas" e sem imagens comoventes, admitiu o presidente americano.

À espera de um milagre, famílias inteiras permanecem entre as cercas ao redor do perímetro que separa os taleban das tropas americanas nas imediações do aeroporto, onde o acesso é muito difícil.

Biden explicou que o perímetro foi ampliado com a concordância dos taleban, horas depois de um líder do movimento fundamentalista, Amir Khan Mutaqi, culpar os Estados Unidos pelo caos no aeroporto e alertar que a situação não poderia durar muito.

"Há paz e calma em todo o país, mas apenas no aeroporto de Cabul há caos", disse Mutaqi.

Cabul registra de fato uma relativa calma. Os combatentes taleban patrulham as ruas e observam de postos de controle.

Nenhum governo foi instaurado, mas as discussões prosseguem entre os taleban e personalidades afegãs para alcançar um gabinete "inclusivo".

Os fundamentalistas também querem impor a imagem de sua autoridade, com a substituição da bandeira de três cores do Afeganistão pela bandeira branca do movimento

Em uma estrada de Cabul, jovens vendiam bandeiras dos taleban, que apresentam uma frase com a proclamação muçulmana de fé e o nome formal do regime: "Emirado Islâmico do Afeganistão".

"Nossa meta é hastear a bandeira do Emirado Islâmico por todo Afeganistão", declarou à AFP o vendedor Ahmad Shakib, estudante universitário de Economia.

Resistência

 Fora de Cabul há alguns focos de resistência contra os taleban. Alguns ex-soldados do governo se reuniram no vale de Panshir, ao norte de Cabul, conhecido como um reduto antitaleban.

Algumas contas do Twitter favoráveis aos taleban afirmaram que o novo regime enviou centenas de combatentes ao vale depois que "as autoridades locais se negaram a entregá-lo pacificamente".

Os islamistas "reuniram forças perto da entrada de Panshir", tuitou Amrullah Saleh, vice-presidente do Afeganistão no governo anterior, que se refugiou na região.

Um dos líderes do movimento em Panshir, denominado Frente de Resistência Nacional (FRN), é Ahmad Masud, filho do conhecido comandante antitaleban Ahmad Shah Masud, assassinado em 2001.

A FRN está preparada para um "conflito de longo prazo", disse à AFP o porta-voz Ali Maisam Nazary, caso um compromisso não seja alcançado com os taleban sobre um governo descentralizado.

Outra fonte afirmou que milhares de afegãos chegaram a Panshir para lutar contra o novo regime ou para buscar refúgio. "Estamos preparados para defender o Afeganistão e alertamos para um banho de sangue", declarou Masud no domingo ao canal Al Arabiya.

 

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