Violência de atentados expõe fracassos de premiê iraquiano

Incapacidade de garantir segurança e promover reconciliação política são as principais falhas de Nuri al-Maliki

Mariana Della Barba e Roberto Simon, de O Estado de S. Paulo,

20 de agosto de 2009 | 12h30

Os atentados da quarta-feira, 19, no Iraque voltaram a expor os dois maiores fracassos do primeiro-ministro Nuri al-Maliki, eleito há três anos. Para especialistas ouvidos pelo Estado, Bagdá foi incapaz de promover uma reconciliação política que reduzisse a tensão sectária e de garantir a segurança da população. O resultado é ameaçador: um Estado deslegitimado diante de uma insurgência organizada.

 

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"Os ataques provam que o governo de Maliki e seu Exército não encontraram uma maneira de combinar reconciliação e segurança", afirmou Juan Cole, professor de história do Oriente Médio da Universidade de Michigan.

 

Promessa de campanha de Maliki, o diálogo entre muçulmanos xiitas, sunitas e curdos não conduziu a uma partilha real do poder. Desde 2006, xiitas, como o próprio Maliki, dominam o aparato estatal - incluindo as forças de segurança - e sunitas, apesar de sua participação nas eleições regionais de janeiro, continuam sub-representados.

 

"Maliki governa de maneira sectária", disse Matthew Duss, do instituto de pesquisa Center for American Progress. "A hegemonia xiita, inevitavelmente, empurra os sunitas para os braços de grupos inspirados pela Al-Qaeda."

 

O professor de Michigan ainda aponta para a "artificialidade" da política de segurança iraquiana. "Você não pode colocar bairros inteiros atrás de barreiras e postos de controle para sempre. Isso destrói a economia. Sem lidar com a raiz da violência, ela voltará", afirma.

 

Os dois especialistas concordam que dificilmente a violência atrapalhará os planos da Casa Branca de encerrar a guerra. Firmado em novembro, o acordo de retirada entre Washington e Bagdá prevê a saída de todas as tropas até dezembro de 2011 - uma promessa de campanha do presidente dos EUA, Barack Obama.

 

Em janeiro, os iraquianos votarão em um referendo sobre a possibilidade de adiantar essa data em um ano. Tropas de combate dos EUA já deixaram as principais cidades do país em junho.

 

Para Duss, embora a insurgência sunita ainda seja capaz de promover carnificinas, ela não pode levar o governo "ao colapso". A improvável queda do regime, segundo Cole, seria a "única coisa capaz de fazer os EUA mudarem seus planos".

 

Patrocinada por Maliki, a campanha pela saída dos EUA tem forte apoio popular - a retirada das cidades foi feriado nacional - e Bagdá é contra mudanças no cronograma.

 

"Não há desejo em nenhum dos governos (EUA e Iraque) nem é politicamente concebível uma mudança nos planos de retirada", afirma Lydia Khalil, especialista em Oriente Médio que trabalhou como conselheira no governo provisório americano no Iraque. No entanto, os dois países não "bolaram um 'plano B' para usar caso a violência aumente", completa.

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