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Taleban tomou distrito no Paquistão com a força e a malícia

A lição da tomada de Buner, nos arredores da capital, mostra que a dinâmica do grupo pode mudar de repente

Jane Perlez e Pir Zubair Shah, The New York Times

25 de abril de 2009 | 22h41

Num primeiro momento, o distrito paquistanês de Buner era um lugar muito difícil para o Taleban atacar. Quando o grupo atacou uma delegacia no Vale do Swat ano passado, a resistência foi destemida. A população local pegou em rifles, pistolas e facões, perseguiu militantes e matou seis deles. Mas a resistência não durou. Por um curto período da última semana, o Taleban assumiu o controle de Buner, um distrito considerado estratégico a menos de 100 quilômetros a noroeste da capital, Islamabad. Centenas de militantes invadiram a região, atemorizando oficiais paquistaneses e americanos com a velocidade do avanço insurgente.

 

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A lição de Buner, segundo afirmam políticos locais e moradores, é que a dinâmica da insurgência do Taleban, metódica e de construções lentas, pode mudar de repente, e que as táticas usadas pelo grupo podem ser copiadas em qualquer lugar. O Taleban assumiu o controle de Buner através da força e da trapaça - despertando simpatizantes adormecidos, financiando aliados políticos, fingindo participar de negociações de paz e esmagando o que restou de seus oponentes, segundo disseram os políticos e residentes entrevistados.

 

Ainda que alguns dos militantes tenham se retirado do distrito, eles ainda comandam os pontos mais altos de Buner e espalharam-se por regiões ainda mais próximos da capital. O que Buner sentiu não deveria ter sido uma surpresa, afirmam os locais. No último outono, o inspetor-geral da polícia da fronteira do noroeste, Malik Naveed Khan, reclamou que centenas de seus oficiais estariam sendo atacados e mortos. Khan estava desesperado - e profundamente abandonado pelo Exército e pelo governo - e contou com o apoio de grupos de civis como o que levantou-se contra o Taleban no último mês de agosto.

 

A população de Buner não ganhou nada por sua bravura. Em dezembro, o Taleban retaliou pela audácia da resistência no distrito, mandando um homem-bomba durante uma votação. Mais de 30 pessoas foram mortas e várias foram feridas. O grande desencantamento com o governo gerou uma onda de suicidas por uma razão básica, afirmou Amir Zeb Bacha, diretor da Organização de Direitos Humanos Internacionais do Paquistão em Buner. "Quando nós levamos os feridos para o hospital, não há medicamentos". A eleição foi remarcada, mas transformou-se numa farsa. Os eleitores estavam assustados demais para comparecer às urnas, afirmou Aftab Ahmad Sherpao, um ex-ministro do Interior, que vive na região e escapou duas vezes de suicidas do Taleban.

 

O acordo de paz que o Exército fechou com o Taleban em fevereiro no vizinho Vale do Swat desmoralizou o povo de Buner. Moradores e oficiais locais afirmam que se perguntaram como poderiam continuar a resistir contra o Taleban quando até mesmo o Exército abandonou seus esforços. O Taleban foi encorajado pelo acordo: eles pediram pela implantação da Sharia, a lei do código islâmico baseada no Corão, por toda a região tribal de Malakand, que inclui o Vale do Swat e Buner. Isso deu permissão para que Taleban anistiasse seus assassinatos, chicoteamentos e a destruição das escolas de meninas no Swat.

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