Tom Brenner/The New York Times
Tom Brenner/The New York Times

Análise: Missão cumprida, mas qual é a missão na Síria?

Para a maior parte da presidência de Donald Trump, objetivo é derrotar o Estado Islâmico (EI) e depois sair da Síria, mas o que o republicano delineou em seu discurso televisionado para a nação na noite de sexta-feira foi algo mais complicado

Peter Baker* / NYT, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2018 | 05h20

Na manhã seguinte ao ataque a Síria, o presidente Donald Trump escreveu em uma rede social: “Missão Cumprida!”. Esta é uma expressão que presidentes e políticos americanos evitaram desde a viagem prematura do presidente George W. Bush com seu malfadado porta-aviões, declarando sucesso na guerra do Iraque. Mas, além da curiosa escolha de palavras, levantou a questão essencial quanto à possibilidade de a Síria ir além do ataque único: qual é, exatamente, a missão?

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Para a maior parte da presidência de Trump, tem sido a de derrotar o Estado Islâmico (EI) e depois sair. Mas o que Trump delineou em seu discurso televisionado para a nação na noite de sexta-feira foi algo mais complicado. Ele prometeu uma campanha constante para impedir que o governo da Síria use novamente armas químicas contra seu próprio povo, ao mesmo tempo em que enfatizava os limites da capacidade ou da disponibilidade dos EUA de fazer mais para solucionar o derramamento de sangue que devastou o país durante sete anos.

Trump se encontra em uma posição não tão diferente da de seu antecessor, o presidente Barack Obama, e sem respostas mais simples. O ataque trouxe para casa os impulsos competitivos de Trump quando se trata da Síria - de um lado, seu bombardeio intencional pretendia demonstrar que ele é o mais poderoso e mais forte no bloco internacional e, por outro, deixar clara sua profunda convicção de que o envolvimento dos EUA na O Oriente Médio desde os ataques de 11 de setembro de 2001 foi um desperdício de sangue e dinheiro.

Ele pouco fez para conciliar tais impulsos com seu ataque de retaliação para punir o governo do presidente Bashar Assad por um suspeito ataque químico há nove dias que matou dezenas de pessoas. Mas, novamente, refletiu as contradições de um público americano que está cansado de tentar resolver os problemas de outros no Oriente Médio, mas recua diante das imagens assombrosas de crianças mortas sufocadas por gás.

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Muitos veteranos da formulação de políticas de Washington no Oriente Médio fizeram elogios condicionais à abordagem contida de Trump ao ataque, se não necessariamente à retórica. Ao atingir três pontos associados a instalações de produção de armas químicas de Assad, limitando o ataque a uma única noite e conduzindo-o em conjunto com Reino Unido e França, disse ter enviado uma mensagem, evitando um envolvimento mais profundo e minimizando o risco de provocar uma retaliação dos patronos da Síria, Rússia e Irã.

Outros argumentaram que o ataque foi um desperdício que pouco obteve e, no processo, permitiu que se excedesse a autoridade do presidente como comandante-chefe, uma vez que ele não obteve a autorização do Congresso. Críticos disseram que, se Trump estivesse verdadeiramente motivado pela preocupação humanitária com as vítimas do ataque químico, deveria reverter sua política de proibir a entrada de praticamente todos os refugiados sírios.

Segundo a maioria dos relatos, o bombardeio basicamente manteve em vigor o status quo na região. Ele fez o mínimo para enfraquecer Assad além de destruir qualquer depósito de armas químicas, deixando-o continuar a guerra contra seu próprio povo através de meios convencionais. E não fez nada para cobrar o “grande preço” que Trump prometeu impor à Rússia e ao Irã por permitir os ataques de Assad com agentes químicos.

Trump vê a Síria em dois departamentos: a luta contra o EI, na qual declarou próxima a vitória, e a guerra civil com muitos aspectos diversos da qual ele não quer tomar parte, dizendo como fez há poucos dias, “que outras pessoas cuidem disso agora”.

Mas isso é uma bifurcação artificial em um país dilacerado pela violência de todos os lados. A guerra civil afeta a capacidade do EI de operar e vice-versa. Trump pode ter optado pela abordagem mais cautelosa imposta pelo secretário da Defesa, Jim Mattis, em vez de um ataque mais debilitante que teria a preferência de seu novo conselheiro de segurança nacional, John Bolton, mas ele não resolveu a questão mais ampla. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* PETER BAKER É JORNALISTA

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