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Análise: Reflexos na economia mundial estão longe da meta utópica 

'Socialismo real' contribuiu mais para nos ensinar o que não se deve fazer na seara econômica do que para estimular a adoção voluntária do mesmo modelo

José Fucs*, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 05h00

No mundo complexo da economia, os resultados alcançados pela Revolução Bolchevique, em 74 anos de comunismo, ficaram distantes da utopia sonhada por muitos revolucionários. Ou mesmo do que o filósofo Karl Marx, autor de O Capital, a bíblia econômica dos comunistas, imaginara para o regime que deveria representar a redenção da humanidade.

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O chamado “socialismo real”, forjado no laboratório soviético, contribuiu mais para nos ensinar o que não se deve fazer na seara econômica do que para estimular a adoção voluntária do mesmo modelo em outras paragens. A total estatização da economia e a proibição da livre iniciativa, que deveriam ajudar a moldar o “novo homem”, sem resquícios do “individualismo burguês”, acabaram esbarrando em obstáculos incomodamente mundanos, que afetavam de forma dramática a produção.

Com o controle da economia pelo Estado, que se tornara o patrão de todos os cidadãos, os trabalhadores tinham pouca motivação para melhorar o seu desempenho. Faltavam estímulos para a inovação, a busca de eficiência e o aumento de produtividade, enquanto prosperavam a burocracia, o tráfico de influência e a corrupção.

A ideia de que, com o comunismo, acabaria a “exploração do homem pelo homem” e os trabalhadores controlariam os meios de produção revelou-se uma miragem. A chamada “mais valia”, que, para Marx, nada mais era que o “lucro” obtido pelos empresários em cima dos salários pagos aos trabalhadores, não desapareceu depois da revolução. Os trabalhadores continuaram a produzir excedentes que iam muito além do que recebiam pelo trabalho que realizavam. Só que, no regime soviético, essa diferença era apropriada pelo governo - um sistema que se tornou conhecido no Ocidente como “capitalismo de Estado”.

Também continuaram a existir diferenças significativas de rendimentos entre os trabalhadores. Diferentes trabalhos, com maior ou menor qualificação, continuaram a ser remunerados de forma desigual, como no velho e combatido sistema capitalista. Mas, em vez de os empresários e os melhores profissionais de cada atividade terem a maior renda, de acordo com as leis de mercado, quem ganhava mais e ocupava os melhores cargos eram os dirigentes do Partido Comunista e os que orbitavam em torno da máquina partidária. O planejamento central da economia, uma marca registrada do sistema, que foi importado de forma compulsória pelos demais países do bloco comunista, pode ter acelerado a industrialização soviética, essencialmente agrária na época da revolução, mas produzia efeitos perversos no cotidiano da população.

Pelo sistema de planejamento central, o Estado determinava tudo o que deveria ser produzido no país. Definia os preços de produtos e serviços, os salários dos trabalhadores e as metas de cada unidade de produção, de acordo com as diretrizes dos planos quinquenais, elaborados por uma casta de tecnocratas que seguia as orientações gerais dadas pelos líderes do Partido Comunista.

Era comum a falta de produtos e o excesso de oferta. Como a produção era focada na indústria militar e de base, os bens de consumo ficavam em segundo plano. Diversos produtos do dia a dia, como carne e pão, muitas vezes eram racionados. As filas de consumidores tornaram-se cenas corriqueiras. Nos setores de vestuário e de eletrodomésticos, havia poucas opções nas lojas e o design tinha pouca relevância no desenvolvimento dos produtos. A restrição à importação alimentava o mercado negro.

Hoje, 26 anos depois do fim da União Soviética e a queda do comunismo, em 1991, a Rússia sofreu grandes transformações e o capitalismo se tornou uma realidade, mas o país ainda luta para superar as enormes distorções causadas pela política de planejamento central. O mesmo se pode dizer em relação aos ex-satélites soviéticos, que importaram de forma compulsória a receita da “mãe-pátria” na era do comunismo, em alguns casos com leves adaptações.

O Estado, hoje, ainda mantém uma presença relevante na economia. Grandes estatais ainda controlam setores essenciais, como o de petróleo e gás, que foi privatizado e depois reestatizado pelo governo. Por todos os lados, é possível observar antigas fábricas abandonadas, pela incapacidade de sobreviver numa economia de livre mercado, sem o suporte de um governo central condescendente com ineficiências estruturais na produção.

A diversificação da economia, defendida pelo Kremlin, jamais aconteceu. Embora a livre iniciativa seja admitida e até estimulada na Rússia hoje, o empreendedorismo não prosperou como se esperava. Muita gente ainda prefere a estabilidade de um emprego público do que se arriscar na área privada. Como nos tempos do comunismo, os altos funcionários do governo continuam a ter inúmeros privilégios. 

*JOSÉ FUCS É JORNALISTA E AUTOR DA REPORTAGEM ‘20 ANOS SEM COMUNISMO’, PUBLICADA PELA REVISTA ‘ÉPOCA’

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