AP Photo/Manu Fernandez
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Catalães 'do contra' enfrentam dilema 

Quem não votou em plebiscito ou rejeita uma separação da Espanha teme piora na economia

Ellen Barry*, The New York Times , O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2017 | 05h00

Uma onda de emoção inundou a Catalunha nos últimos dias, entre os que exigem a separação da Espanha e os que se opõem a ela.  Pichações foram feitas durante a noite, proclamando: “Não somos espanhóis”. Em resposta, multidões marcharam diante de atônitos turistas, cantando “Eu sou, eu sou, eu sou espanhol”.

O que aconteceria depois da declaração de independência?

Uma coisa os une: todos têm pouca ideia do que constituiria uma Catalunha independente. Seria admitida na União Europeia? Adotaria uma nova moeda? O comércio entraria em declínio? Ficariam separados de sua família na Espanha? 

“Explique-me: se eu ficar aqui, quais seriam as vantagens ou desvantagens?”, questiona Loli Risco, de 59 anos. “Não estão explicando nada, apenas dizem ‘isso é o que eu quero’. Da minha parte, quero manter o euro e quero continuar sendo europeu. O que vou fazer? Venderei meu apartamento e vou embora.”

Loli e sua filha ficaram em casa no domingo e disseram que suas vozes haviam sido excluídas. Os líderes catalães declararam que 90% dos eleitores apoiaram a separação, resultado que deixou claro que quase todas as pessoas motivadas a votar eram as que queriam a independência.

No entanto, como Loli e sua filha, mais da metade dos cidadãos habilitados a votar na Catalunha não foi às urnas ou enfrentou a polícia que usava cassetetes e armas com balas de borracha para fazer cumprir a ordem do governo central de suspender o plebiscito.

O resultado dividiu não só a Espanha, mas a própria Catalunha. Poucas portas adiante da casa de Loli, em uma loja que vende conserva de pernil de porco, Noemi Aguro, de 38 anos, manifestou rejeição às pessoas que não votaram, dizendo que não tinham mais escolha a não ser aceitar o resultado. “Não votaram. Tiveram a chance, então não deveriam reclamar agora”, disse Aguro.

Economistas concordam que a Catalunha seria viável como país independente, mas discordam quanto ao impacto sobre empregos, barreiras ao comércio e necessidades de gastos do novo estado. Um governo separatista teria de negociar questões espinhosas com a Espanha, tais como a forma de repartir a dívida espanhola, agora equivalente a pouco mais de 100% do PIB. 

Xavier Sala-i-Martín, economista e professor da Universidade de Columbia, um dos líderes do movimento separatista, sustenta que uma saída unilateral da Catalunha poderia deixar a Espanha como única responsável por sua dívida. 

O governo separatista propõe substituir o Exército espanhol pelo seu próprio, mas seus cálculos, como vários outros, foram contestados por economistas, que os consideraram otimistas demais. Os autores Josep Borrell e Joan Llorach observam que os separatistas também nunca levam em conta o que aconteceria com a taxa anual paga pela adesão à Otan, de cerca de US$ 3,5 bilhões.

Sevi Rodríguez Mora, professor na Universidade de Edimburgo, calcula que as barreiras alfandegárias acrescentadas ao comércio entre a Catalunha e o resto da Espanha causariam uma queda de 10% no PIB da região. “A economia é tratada como questão secundária, usada por um lado ou outro como propaganda”, disse. Gala Cabré, de 16 anos, estava sentada ao lado do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, onde os praticantes de skateboard faziam algazarra atravessando a praça. Ela disse que a Catalunha prosperaria como um pequeno e rico enclave.

“Andorra é um país independente que tem sua própria moeda”, disse Cabré, enquanto suas amigas concordavam com a cabeça (na verdade, o país usa o euro). “Tudo lá é mais barato. Andorra tem muita polícia. É um país muito seguro”. Ela e seus amigos também têm certeza de que a União Europeia acabaria aceitando a Catalunha, mesmo que a Espanha fosse contra. Líderes da UE têm sido relutantes em adotar a causa catalã com medo de incentivar outros separatismos no bloco. 

Pesquisas mostraram uma opinião dividida. Em 2012, pela primeira vez, 51,1% dos entrevistados preferiram a independência, de acordo com o Centro de Estudos de Opinião, a agência oficial catalã de pesquisas eleitorais. Nas eleições parlamentares regionais mais recentes, em 2015, 48% dos eleitores votaram nos partidos pró-independência.

O economista Rodríguez Mora disse que essa divisão está relacionada à renda, com os moradores de vilarejos e os de áreas urbanas afluentes, em geral a favor da independência, enquanto os moradores de áreas urbanas da classe trabalhadora, muitos dos quais com raízes em outras partes da Espanha, são contra.

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Alberto Vallespín, de 44 anos, dono de uma serralheria no centro de Barcelona, vem de uma antiga família catalã, mas se preocupa com o efeito sobre seus negócios, pois tem fornecedores e clientes em outras partes da Espanha. 

“A separação poderia representar impostos adicionais sobre essas transações”, disse Vallespín, principalmente se o processo não for amigável. “As coisas não ficarão melhores se a Catalunha conquistar a independência. Podem até mesmo piorar.” 

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