REUTERS/Grigory Dukor
REUTERS/Grigory Dukor

Moscou contra o mundo - Agronegócio renasce na Rússia graças a sanções

No interior do país, agricultores promovem até um festival para celebrar a ausência de concorrência no mercado interno

Cristiano Dias, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 05h00

MOSCOU - Em 2014, após a anexação da Crimeia pela Rússia, EUA e União Europeia impuseram sanções que afetaram a economia russa, especialmente o setor financeiro, causando fuga de capitais e um tombo no rublo. Foi um choque. Só que as restrições não tiveram um impacto homogêneo e pelo menos um segmento produtivo do país enriqueceu à custa da sinuca diplomática: o agronegócio.

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O que aparentemente soa paradoxal se explica pelo que os russos batizaram de “contrassanções”. Em agosto de 2014, o presidente Vladimir Putin decidiu retaliar e proibiu a importação de produtos agrícolas de países que estabeleceram o embargo. De uma hora para outra, o decreto de Putin suspendeu metade das importações de derivados do leite, verduras e frutas, e 60% das de carne e peixe. Entre 2013 e 2016, o comércio entre Rússia e União Europeia caiu 35% e foi aberta uma janela de oportunidade para a produção local.

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Assim, o camponês russo renasceu das cinzas. De acordo com Alexander Tkachov, ministro da Agricultura da Rússia, a safra de grãos deste ano deve atingir 130 milhões de toneladas – quebrando um recorde histórico obtido no período soviético, em 1978. Segundo Tkachov, o país poderia exportar até 40 milhões de toneladas em 2018.

No ano passado, segundo dados oficiais, o crescimento do setor agrícola foi de 4,8%. A expansão beneficiou atividades secundárias, como a indústria química. “O renascimento da agricultura na Rússia fez o mercado de fertilizantes crescer 15% no ano passado”, disse ao Estado Andrey Guryev, CEO da PhosAgro, maior fabricante de fertilizantes da Rússia. 

Os piscicultores também se aproveitaram do bom momento. No Mar de Berents, perto do Ártico, a Russian Aquaculture, maior fabricante de salmão do país, produziu este ano seis vezes mais do que em 2016. Recentemente, a empresa inaugurou uma nova fazenda para produzir mais 1.500 toneladas de peixe e já comprou dois centros de produção na Noruega. “Em breve, esperamos dominar um quarto do mercado interno”, afirma Ilya Sosnov, diretor da empresa.

Festival

Da mesma forma, os produtores de queijo festejaram as sanções internacionais. Neste caso, literalmente. Na cidade de Istra, a 70 quilômetros de Moscou, os fazendeiros promovem há três anos o “Festival das Sanções”, um convescote de empresários do setor agrícola para celebrar o dia 6 de agosto – data em que Putin decretou as “contrassanções”.

“Com a eleição do presidente Donald Trump, nos EUA, nosso maior temor era o de que as sanções fossem suspensas”, disse Oleg Sirota, um dos mais animados produtores locais e um dos organizadores do festival. “Mas isso nunca aconteceu, graças a Deus.” 

Sirota conta que pedalava de Moscou a São Petersburgo, no verão de 2014, quando ficou sabendo que Putin havia decretado a suspensão da importação de produtos agrícolas da UE. “A ideia de produzir queijos veio na hora”, lembra. O projeto de sua fazenda, segundo ele, foi concebido ainda na estrada. 

Em seguida, Sirota largou a profissão de técnico em TI, vendeu tudo o que tinha, pediu dinheiro para amigos, família, bancos e levantou do chão uma pequena fábrica em Istra, onde ele armazena com carinho um parmesão com o nome de Putin. “Este queijo está especialmente guardado. Quando ele vier aqui, vai receber de presente.”

Os produtos fabricados na fazenda de Sirota se aproximam do padrão europeu. No entanto, a maioria dos queijos disponíveis nas prateleiras dos supermercados da Rússia não tem a mesma qualidade, sinal de uma indústria que ainda dá os primeiros passos. “Quando decidi fazer queijo, fui estudar na Alemanha”, conta Sirota. “A maioria dos produtores russos não tem essa preocupação.” Sua fazenda, que tinha duas vacas em 2014, agora tem mais de 40 – mesmo assim, ele ainda sofre para conseguir leite suficiente para manter o nível de produção. 

Durante quase duas horas de conversa, Sirota não conseguiu esconder um certo orgulho de fabricar um parmesão exclusivamente russo. Com exceção de uma máquina que dá formato aos queijos, que ele importou da Alemanha, todas as outras foram feitas na Rússia. 

“Tudo é 100% russo”, diz. Até o tubo usado na ordenha das vacas, de acordo com ele, saiu da mesma fábrica que produz o fuzil Kalashnikov. Sua única queixa é o rodo, usado para limpar o chão, que é importado da França. “Não entendo como um país que lançou um homem no espaço e fez uma bomba nuclear não consegue fabricar um rodo.”

Prejuízo

Enquanto os agricultores russos comemoram, os europeus fazem pressão pelo fim das sanções internacionais. Um estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas de Viena, publicado pelo jornal alemão Die Welt, calculou que a Europa perdeu US$ 120 bilhões na queda de braço com Moscou. Uma conta parecida com a de Idriss Jazairy, relator especial da ONU. Segundo ele, a UE tem um prejuízo de US$ 3,2 bilhões por mês com as retaliações impostas por Putin.

A Itália é um dos países que mais perdeu. Segundo estimativa da Coldiretti, a associação italiana de agricultores, o prejuízo já chegou a US$ 12 bilhões. O Centro Holandês de Estatísticas afirma que as exportações de carne, queijo, manteiga e peixe do país para a Rússia caíram praticamente a zero, afetando tradicionais centros produtores na Holanda.

Nos países da UE que são mais dependentes de exportações agrícolas e do comércio bilateral com a Rússia, a situação é ainda mais dramática. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, declarou que as sanções foram um “tiro no pé” dado pela Europa. “Deram mais prejuízo para nós do que para os russos”, reclamou. “Problemas não econômicos não podem ser resolvidos com medidas econômicas.”

Os primeiros-ministros da República Checa, Bohuslav Sobotka, e da Eslováquia, Robert Fico, se uniram recentemente para pedir o fim do enfrentamento com o governo russo, posição também defendida pela Bulgária. “Não tenho ideia do impacto que as sanções tiveram na Rússia, mas na Bulgária elas foram um desastre”, se queixou o premiê búlgaro, Boiko Borisov. 

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