EFE/EPA/MIRAFLORES PALACE PRESS OFFICE
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O futuro da Venezuela

A maioria dos venezuelanos está focada em sobreviver; e esse não era o plano de Chávez

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 06h00

Quando o assunto é Venezuela, duas perguntas são recorrentes: o que a comunidade internacional pode fazer para abreviar o sofrimento do povo venezuelano e como isso vai acabar. Boa parte da oposição, em resposta à primeira pergunta, diz que sanções comerciais não são a solução, mas sim o isolamento político do país no cenário internacional, ao lado do bloqueio de bens dos membros do regime.

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O raciocínio por trás dessa posição é sinistro e me foi exposto mais uma vez na semana passada, pela deputada Manuela Bolívar, que veio a São Paulo a convite da Fundação Fernando Henrique Cardoso. O bloqueio à importação de petróleo e à exportação de produtos de primeira necessidade produziria mais fome e escassez. E essas são as vias pelas quais o regime chavista tem aprofundado seu controle sobre a população.

Eu vi isso de perto, quando cobri a eleição para a Assembleia Constituinte, no dia 30 de julho. As pessoas estão passando fome e sem acesso a remédios. Isso é generalizado: atinge também as classes média e alta porque, mesmo tendo patrimônio, não há moeda circulando, e mesmo podendo fazer transferências bancárias, nem sempre se encontram os produtos.

A maioria está focada na luta diária pela sobrevivência. Esse não era o projeto original de Hugo Chávez. Assim como outros governantes populistas de esquerda da América do Sul, ele surfou no super ciclo das commodities, distribuindo dinheiro, acompanhado de uniformes e palavras de ordem socialistas, quando não de armas para proteger seu regime. 

O controle da população por meio da escassez material é um Plano B. Mas nem por isso menos funcional. Os militares enriquecem com o monopólio das importações e distribuição de produtos; os líderes chavistas locais garantem apoio das bases entregando esses bens de primeira necessidade aos leais ao regime; como a cesta básica não é suficiente, todos padecem nas filas, num exercício de submissão.

A oposição pede à comunidade internacional que congele os bens dos dirigentes chavistas. E, no caso dos EUA, que ampliem o alcance dessa medida, que até agora atinge apenas 22 funcionários venezuelanos, incluindo o presidente Nicolás Maduro. A esperança é de que, ao cortar o acesso a suas riquezas, e isolar a Venezuela como pária internacional, eles saiam da sua zona de conforto e aceitem negociar de verdade.

Há um otimismo nessa posição. Coreia do Norte e Cuba, sem falar nas ditaduras africanas, estão aí para mostrar como regimes totalitários se aproveitam da miséria de seus povos, convertida em subserviência graças ao controle absoluto dos meios de repressão. A combinação de fome e medo de apodrecer na cadeia mantém a população dócil.

Há um mito romântico segundo o qual a fome leva a revoluções. Não tem sido assim. Na Primavera Árabe, Tunísia, Egito, Líbia e Síria não se levantaram contra seus regimes opressores por fome de comida, mas de liberdade e dignidade. As revoluções da França, da Rússia, da China e mesmo de Cuba não foram iniciativa de miseráveis, mas de intelectuais, burgueses e operários alimentados. Quando se está com fome, é impossível pensar noutra coisa que não seja comer. Todo o resto fica em segundo plano.

Quanto à segunda pergunta, como isso vai acabar, o regime não tem incentivo para negociar com a oposição, que afinal não o ameaça. Desde a derrota chavista na votação para a Assembleia Nacional em dezembro de 2015, não se realizaram mais eleições justas. 

Não existe motivação real nem ambiente político para uma intervenção externa. O governo detém um vasto aparato repressivo. A oposição não tem armas nem desejo de violência. Será preciso um surto de patriotismo entre soldados e suboficiais, não beneficiados pelos privilégios do regime, para que um levante armado derrube o governo. Mas os sinais disso ainda são tênues. 

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