EFE/ Anthony Wallace
EFE/ Anthony Wallace

Ofensiva chinesa na elite Ocidental

Pequim tenta ganhar confiança de políticos,acadêmicos e burocratas em vários países

The Economist, O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2017 | 05h00

Se uma potência emergente desafia a que está no topo com frequência eclode uma guerra. Essa perspectiva, conhecida como a armadilha de Tucídides, com base no historiador grego que a definiu, vem ameaçando as relações entre China e Ocidente, particularmente os EUA. O confronto está cada vez mais insidioso. Mesmo que a China não queira conquistar território, o temor de muitas pessoas é que ela tente conquistar mentes.

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A Austrália foi o primeiro país a indicar o perigo das táticas chinesas. No dia 5, acusações de que a China vinha interferindo na política, nas universidades e no setor de comunicações levaram o governo a propor nova legislação para conter a influência sobre os parlamentares do país. Grã-Bretanha, Canadá e Nova Zelândia também já soaram o alarme. No dia 10, a Alemanha acusou a China de tentar ganhar a confiança de políticos e burocratas. 

Este comportamento tem um nome: “sharp power” (poder afiado), cunhado pelo National Endowment for Democracy (no sentido de que ele penetra ou perfura os contextos político e de informação nos países). O “soft power” (poder brando) aproveita a atração da cultura e dos valores para aumentar a força de um país. O “sharp power” auxilia regimes autoritários a manipular a opinião estrangeira.

O Ocidente precisa responder a esse comportamento da China, mas não apenas erguendo barricadas. Ao contrário da União Soviética, a China hoje integra a economia mundial. Assim, numa era em que a arte de governar está em escassez, o Ocidente precisa encontrar um meio-termo diplomático. E, para início de conversa, compreendendo o que é o “sharp power” e como funciona.

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Influência

Como muitos países, a China há muito tempo utiliza a concessão de vistos, bolsas de estudo, investimentos e cultura em favor de seus interesses. Mas, recentemente, suas ações se tornaram mais ameaçadoras e globais. Seu “sharp power” tem uma série de componentes que se entrelaçam: subversão, intimidação e pressão, combinados para promover a autocensura. E a recompensa final é a subserviência preventiva por aqueles que não foram por ela abordados, mas que temem perder financiamentos, acesso ou influência.

Na Austrália e na Nova Zelândia, fala-se que o dinheiro chinês tem comprado influência na política, com doações a partidos ou pagamentos a políticos. Segundo denúncia do serviço de inteligência alemão, a China estaria usando a rede LinkedIn para envolver políticos e autoridades de governo, com pessoas se fazendo passar por recrutadores e estudiosos e oferecendo viagens gratuitas ao país. 

A intimidação é uma nova ameaça. Às vezes, a mensagem é flagrante, como quando a China puniu economicamente a Noruega por conceder o Premio Nobel da Paz a um ativista chinês. Com frequência, palestrantes e acadêmicos evitam estudar temas considerados sensíveis pelos chineses. Os efeitos podem ser graves. Professores ocidentais têm sido pressionados a se retratar. Pesquisadores perdem acesso a arquivos chineses. Políticos acabam acreditando que os especialistas em China de seus países estão muito mal informados.

Como a China está tão integrada na vida cultural, política e econômica, o Ocidente é vulnerável a essa pressão. A economia é tão importante que as empresas dançam conforme a música da China, sem mesmo que seja solicitado. Reagindo às denúncias de Austrália e Alemanha, a China qualificou seus críticos de irresponsáveis e paranoicos – de fato, a histeria anti-China comporta perigos. Mas, se os chineses fossem mais fidedignos, diriam que o desejo de influenciar surge sempre quando países se tornam poderosos.

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Hoje, a China tem muito mais coisas em jogo fora de suas fronteiras do que no passado. Cerca de 10 milhões de chineses se mudaram para o exterior desde 1978. Há uma preocupação de que essas pessoas adquiram hábitos democráticos e possam corromper a própria China. Separadamente, empresas chinesas vêm investindo em países ricos em recursos, infraestrutura estratégica e agricultura. 

Para garantir que a ascensão da China seja pacífica, o Ocidente tem de dar espaço à ambição dos chineses. O que não significa que tudo seja permitido. O primeiro passo para evitar a armadilha de Tucídides é usar os próprios valores para exaurir o poder afiado da China. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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