Atentado mostra que França não adotou medidas básicas de segurança

Atentado mostra que França não adotou medidas básicas de segurança

Lourival Sant'Anna

15 de julho de 2016 | 11h32

O fato de um caminhão de 20 toneladas poder avançar livremente sobre uma multidão que celebra a principal data nacional em uma das cidades mais importantes do país demonstra que a França ainda não adotou as medidas de segurança básicas para se defender do terrorismo, mesmo depois de tantos atentados. Barreiras impedindo o trânsito de veículos nos acessos ao Passeio dos Ingleses teriam evitado esse atentado. O presidente François Hollande havia anunciado o fim do estado de emergência para este mês, o que também demonstra ingenuidade e despreparo frente às ameaças que o país enfrenta. Dentro desse quadro, um dado mostra o tamanho do desafio: o país não tem agentes suficientes para monitorar sequer os “radicalizados” que sabidamente poderão cometer atentados. E o motorista Mohamed Lahouaiej Bouhlel, autor do atentado desta quinta-feira em Nice, não estava nessa chamada Lista S.

De acordo com Jean-Charles Brisard, presidente do Centro Francês para a Análise do Terrorismo, de Paris, a Lista S tem 10 mil nomes. A vigilância 24 horas de um suspeito mobiliza 20 agentes. Ou seja, seriam necessários 200 mil agentes para um monitoramento integral. A França dispõe de menos de 5 mil agentes para essa tarefa. Depois do atentado de novembro em Paris, que deixou 130 mortos, o deputado Éric Crotti propôs uma mudança na lei permitindo a prisão preventiva dos radicalizados. O primeiro-ministro Manuel Valls disse que consideraria a proposta, mas que na França não haveria uma “Guantánamo”, em referência à prisão nos Estados Unidos que mantém suspeitos de terrorismo sem julgamento por tempo indeterminado.

No caso, de fato, não haveria o que julgar, pois se trataria apenas da previsão de que algo pudesse vir a acontecer no futuro. Isso é impossível de provar. Sem provas, não há crime, segundo o direito. Na visão de muitos juristas, a figura dessa “detenção administrativa” daria ao Estado francês um poder incompatível com os direitos civis e os princípios democráticos. O terrorismo tem essa capacidade de lançar um Estado contra si mesmo, de testar suas capacidades e convicções, e de colocar em choque seus princípios e ideaiss: de um lado, a proteção da vida de inocentes; de outro, os direitos e liberdades civis.

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Viatura da polícia e caminhão usado no atentado em Nice Foto: AFP / VALERY HACHE - 14 /7 /2016

Viatura da polícia e caminhão usado no atentado em Nice
Foto: Valery Hache/France Presse – 14/7/2016

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