No Afeganistão, homenagear Trump pode ser fatal
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No Afeganistão, homenagear Trump pode ser fatal

Um afegão que decidiu homenagear o presidente dando seu nome ao seu filho mais novo afirma agora que não se sente seguro e fugiu do país

Redação Internacional

28 Maio 2018 | 21h37

CABUL – Fazer um elogio ao presidente americano, Donald Trump, pode funcionar na Coreia do Norte e em Washington, mas no Afeganistão isso pode ser perigoso e até fatal.

Um afegão que decidiu homenagear o presidente dando seu nome ao seu filho mais novo afirma agora que não se sente seguro e fugiu do Afeganistão.

Assadullah Poya com seu filho Donald Trump, de 1 ano, no colo, ao lados dos outros filhos Fatima, 9, e Karim, de 8 . Foto: Jim Huylebroek/The New York Times

 

Assadullah Poya deixou o país três dias depois que outro afegão que ajudou a fazer a cunhagem de uma medalha de ouro agradecendo ao presidente Trump por seu apoio ao Afeganistão foi morto pelo Taleban, segundo policiais na Província de Logar e insurgentes. Um terceiro afegão, que ajudou na medalha, também disse que fugiria do país.

Zabihullah Mujahid, o porta-voz do Taleban, disse em um comunicado no WhatsApp que os insurgentes foram responsáveis ??pela morte de Gul Nabi em Pul-e-Alam, a capital da Província de Logar, em vingança por seu papel “criminoso” em fazer o medalha.

Shapoor Ahmadzai, porta-voz da Polícia da Província de Logar, disse que Gul Nabi, um importante líder tribal da província, foi morto por uma bomba presa na parte de baixo de seu carro na sexta-feira passada.

Em sua conta no Twitter, Mujahid postou uma foto de Nabi com um comunicado sobre sua morte.

Em janeiro, Nabi e seu amigo Farhad Akbari, comandante da polícia local afegã em Logar, levantaram fundos para fazer uma medalha de ouro para agradecer a Trump por ter adotado uma postura crítica contra o Paquistão, algo que muitos afegãos há tempos exigem, acusando o país de fornecer refúgio aos Taleban.

A Polícia local afegã é uma força de milícia pouco treinada e pró-governo. A Província de Logar, que fica ao sul da capital, tem sido fortemente contestada pelos Taleban há anos.

“Agora o presidente dos EUA reconhece que o Paquistão faz jogo duplo e cortou a ajuda a Islamabad”, disse Akbari, de 38 anos, em uma entrevista em janeiro. “Nós enviamos a ele aquela medalha para mostrar nossa união e nossa admiração.”

Os dois homens arrecadaram cerca de US$ 640 para comprar o ouro, principalmente usando pequenas contribuições dos moradores de Logar, disseram. Nela, foi escrito, em persa: “Esta medalha de bravura é do povo afegão a Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América”, e os homens disseram que a apresentaram à embaixada americana em Cabul.

Assadullah Poya foi contatado por meio do Facebook Messenger e disse que o assassinato de Nabi o assustou. “Depois de ver a reação em relação ao nome do meu filho, e também o assassinato do homem que concedeu ao presidente Trump uma medalha, eu não me sinto seguro”, disse Poya. “Minha vida e a da minha família estão em risco, e eu estou pedindo proteção.”

O pai contou que sua decisão de colocar o nome de Trump no seu filho também fez com que ele perdesse o emprego em uma agência de refugiados, além de não conseguir mandar seu filho mais velho para a escola.

Farhad disse se arrepender de ter feito a medalha para Trump porque os envolvidos não receberam nenhum apoio das autoridades americanas.

“Pensávamos que os EUA fossem uma superpotência e compartilhassem nossos valores, mas não”, disse Farhad. A Embaixada dos EUA em Cabo não comentou. / NYT

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