Erik Heyl/U.S. Naval History and Heritage Command
Erik Heyl/U.S. Naval History and Heritage Command

1866: um marco na hostilidade entre americanos e coreanos

Países têm versões diferentes para conflito envolvendo embarcação mercante em região que viria a ser a Coreia do Norte

O Estado de S.Paulo

11 Junho 2018 | 12h35

A relação diplomática conflituosa entre Estados Unidos e Coreia do Norte tem precedentes no século 19, décadas antes de as Coreias serem separadas, no fim da 2.ª Guerra. Mas a relação dos americanos com a região nem sempre foi hostil. Em 1853, a canhoneira USS South America visitou Busan, cidade que atualmente fica no território sul-coreano. Segundo relata o pesquisador e Ph.D. sul-coreano Kim Young-sik no livro "Breve História das Relações EUA-Coreia antes de 1945" (tradução livre, sem publicação no Brasil), a embarcação ficou na Coreia por 10 dias, durante os quais os americanos foram recebidos pelos funcionários do governo local para seguidos jantares.

Arquivos coreanos locais registram que em 1855 e em 1865 marinheiros americanos que cujas embarcações haviam naufragado foram resgatados no litoral coreano. Os homens foram acolhidos pela população, alimentados e enviados à China para repatriação aos Estados Unidos. À época, a Coreia permitia que a China gerenciasse seus assuntos estrangeiros.

De acordo com o pesquisador, em janeiro de 1866, as relações EUA-Coreia ainda eram pacíficas. Nesta data, o veleiro americano Surprise encalhou no Rio Taedong, em Suchun-po (atual Sunchon, na Coreia do Norte) durante uma tempestade. Funcionários da aldeia portuária resgataram os marinheiros e os enviaram ilesos para a China. Em seguida, o barco encalhado foi queimado e suas barras de ferro foram recuperadas pela população. O primeiro conflito veio em dezembro do mesmo ano e envolveu outra embarcação. Era a escuna armada General Sherman, anteriormente chamada de US Princess Royale. Do lado americano, a história é de que o navio mercante foi simplesmente destruído e seus passageiros, massacrados. A versão americana é contada na publicação "História das operações navais dos Estados Unidos: Coreia" (tradução livre), de James Field, publicada pelo Gabinete de Publicações do Governo dos EUA. Uma versão detalhada de como se iniciou o desentendimento é registrada em um relatório assinado pelo Secretaria Naval dos Estados Unidos, em 1867. O documento traz a primeira conversa entre o comandante do General Sherman, Robert Shufeldt, e um funcionário do governo coreano, possivelmente o governador de Hae-Chow-Poo.

"Shufeldt: De onde você vem e com que objetivo veio aqui?

Coreano: Meu nome é Le-Ke-Yung; eu moro na vila de Kee-Chen, onde sou o governante. Eu venho para ver seu navio.

Shufeldt: Esta embarcação chegou aqui em 24 de janeiro e enviou uma carta pelo povo da ilha de  Neu-to para o funcionário de Chang-Yueng-Heen, acompanhada de um comunicado ao rei, do qual nenhuma resposta foi recebida. Você sabe de algo sobre isso?

Coreano: Não sei nada disso. Com que objetivo veio aqui?

Shufeldt: Uma embarcação americana naufragou no rio Ping-Yang no mês de setembro, e foi reportado que a embarcação foi queimada, e todos a bordo foram mortos pelos coreanos. Eu venho para investigar este assunto e enviei um despacho ao rei para indagar se o relatório é verdadeiro ou falso, e se as pessoas ainda estão vivas.

Coreano: Quantos 'li' [unidade de medida, corresponde a cerca de 645 metros] são até o seu país? Como vossa excelência não deve ficar muito neste local, eu sinceramente espero que você parta rapidamente e retorne ao seu país.

Shufeldt: O navio está apenas esperando uma resposta ao despacho.

Coreano: Você não deve se demorar, e partir imediatamente.

Shufeldt: Você ouviu falar ou sabe alguma coisa sobre o navio que naufragou?

Coreano: Não sei nada disso. Eu apenas espero que você imediatamente saia e retorne a sua terra nativa.

Shufeldt: Que objeção pode haver à nossa espera? Se sou obrigado a sair sem uma resposta ao meu despacho, muitas outras embarcações armadas virão ao seu país.

Coreano: Voltar com tantas embarcações armadas seria extremamente injusto. Voltar ao seu país seria louvável.

Shufeldt: Permitir que o seu país assassine nossos homens sem causa ou provocação não pode ficar sem investigação.

Coreano: Eu não sei nada sobre isso.

Shufeldt: Se você não sabe nada, não tenho mais nada a te dizer."

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Do lado norte-coreano, a história é outra. Segundo o governo de Kim Jong-un, o General Sherman marcou o início da invasão americana na coreia. Na publicação "Entendendo a Coreia 2 - História", de 2016, a narrativa é contada pelo lado asiático. "Armado com quatro canhões e carregando 90 combatentes, o navio aportou no estuário do Rio Taedong em 16 de agosto de 1966. Depois de navegarem pela região de Pyongyang, os agressores estupraram mulheres, saquearam casas e sequestraram soldados coreanos."

De acordo com a pesquisa de Kim Young-sik, o navio de fato navegou pelo Taedong rumo a Pyongyang, em busca de trocas comerciais. A carga consistia principalmente de artigos de algodão, estanho e vidro. A escuna deixou Tientsin em 29 de julho, parou em Chefoo e então chegou à foz do Taedong em 18 de agosto, com muita munição, incluindo canhões e armas menores. Ignorando os repetidos pedidos de funcionários coreanos para que voltasse, o general Sherman continuou navegando rumo a Pyongyang. O dono do barco, W.B. Preston, exigiu falar com o "homem no comando" e se recusou a cooperar com os funcionários locais. Além disso, exigiu que a Coreia parasse de executar católicos. O missionário Robert Thomas, a bordo da embarcação, disse que sua Igreja Protestante era superior à Igreja Católica e exigiu a autorização para realizar uma missa gospel em território coreano.

Quando as águas do Taedong baixaram, o navio encalhou e se tornou um incômodo ainda maior para os coreanos, já furiosos. Foi quando Preston enviou grupos de assalto em pequenos barcos para coletar alimentos e reféns. O governador de Pyongyang à época, Park Gyu-su, ordenou que suas tropas destruíssem a embarcação, mas os canhões coreanos não conseguiram romper o casco de ferro do navio. Um soldado carregou vários barcos com enxofre, salitre e lenha, os incendiou e os levou até o navio encalhado. O gás venenoso do enxofre e salitre queimando obrigaram a tripulação a abandonar o navio. Quando pularam na água, soldados e civis os espancaram até a morte. Todos os membros da tripulação foram mortos, e seus corpos, mutilados e queimados.

A versão norte-coreana é similar à do pesquisador nesta parte da história. "No dia 2 de setembro, o povo de Pyongyang enviou barcos rio acima, pela maré baixa. Ao mesmo tempo, os soldados atacaram com mosquetes e flechas. Os barcos [em chamas] colidiram com o do General Sherman, incendiando-o. Finalmente, o navio submergiu no rio Taedong." Um detalhe da história divulgado pelo regime norte-coreano coloca o bisavô do fundador do país, Kim Il-sung, como um dos aldeões que ajudou a afundar a embarcação americana. O ex-líder conta a história em sua autobiografia. "Meu bisavô era um mero coveiro para um dono de terras, mas ele era um nacionalista ardente. O General Sherman, um barco mercante americano, invadiu nossa terra e navegou pelo rio Taedong até a Ilha Turu, matando muitos coreanos com rifles e fogo de canhões. Meu bisavô era um dos aldeões que se juntaram para fazer cordas e amarrá-las através do rio, para bloquear o caminho de fuga dos invasores americanos."

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