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A política identitária

Identificação pessoal com um candidato é mais importante do que suas propostas, coerência, partido e passado

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

25 Março 2018 | 05h00

“Infeliz o país que precisa de heróis.” Com essa frase, na peça de Bertolt Brecht, Galileu defende a decisão de negar sua descoberta de que a Terra gira em torno do Sol para não ser queimado na fogueira da Igreja Católica. A palavra “heróis” poderia ser trocada por “salvadores” ou “pais”.

Estou voltando das eleições na Rússia. Mais uma vez, Vladimir Putin afirmou o seu poder, nos papéis de salvador, pai, herói e “macho”. Ele convenceu os russos de que seu país é uma “fortaleza cercada” de inimigos, dos terroristas islâmicos ao Ocidente. Só ele é capaz de protegê-la.

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Antes da Rússia, eu estava na Itália, onde os dois partidos mais bem-sucedidos nas eleições, o Movimento 5 Estrelas (M5S) e a Liga, cada um a sua maneira, conquistaram seus votos prometendo proteger a Itália do livre-comércio, da União Europeia e da imigração. 

Donald Trump mantém seus seguidores em transe, com a noção de que só ele é capaz de defender os EUA das ameaças externas, com tarifas, um muro, um arsenal incomparável, seu patriotismo e esperteza.

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O ex-presidente Lula, literalmente, se atribuiu o papel de “pai” do Brasil, e à sucessora por ele escolhida, Dilma Rousseff, o de “mãe”. As pesquisas lhe dão mais de um terço da preferência do eleitorado.

Populismo.

Em todos esses casos, os eleitores se dispõem a perdoar grandes defeitos, visíveis até para eles. Putin está no poder há 18 anos, eliminando toda oposição real e rodeado de oligarcas (o termo usado na Rússia) que sugam as riquezas do país.

Trump rompeu a tradição dos presidentes americanos de divulgar sua declaração de imposto de renda. Seus mais próximos colaboradores mantiveram relações suspeitas, quando não ilegais, com a Rússia, um dos principais adversários dos EUA. É errático, incoerente e confuso nas suas políticas de governo, além de ter atitudes discriminatórias num nível inaceitável para grande parte da sociedade americana.

O comediante Beppe Grillo, líder do M5S, foi condenado por causar a morte de três pessoas, incluindo uma criança de 9 anos, quando dirigia numa estrada militar, proibida para civis. Algumas de suas posições refletem a mesma irresponsabilidade. 

Matteo Salvini, que encabeça a chapa da Liga, conquistou primeiro o eleitorado do norte, explorando seu menosprezo pelos italianos do sul, e agora se afirmou como líder nacional, unindo todos os italianos contra os imigrantes. Pouco antes da eleição, um ex-candidato a vereador pela Liga fez 30 disparos contra africanos, ferindo 6.

Seguidores.

Todos esses candidatos derrotaram adversários que têm uma abordagem racional dos problemas e das soluções, que respeitam os limites da realidade e da ética. Não são pessoas perfeitas, até porque isso não existe, mas são muito mais coerentes, sobretudo quando comparadas com seus rivais.

Os seguidores dos populistas não são guiados pela razão. Isso não quer dizer que eles não sejam pessoas racionais ou que não tenham razões para fazer essas escolhas. Mas que a força determinante por trás dessas escolhas é da ordem do emocional. 

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É o que vem sendo chamado de “política identitária”: a identificação pessoal com o candidato e com outros de seus seguidores é mais importante do que suas propostas, coerência, partido e passado. Argumentos, estudos, experiências que provem que as propostas deles não podem ser cumpridas ou levarão o país ao desastre têm menos importância que o fascínio que suas figuras exercem.

Ao longo da história, a emoção tomou conta da política em tempos de agudas transformações. As pessoas se sentem vulneráveis, confusas, e buscam um salvador, com uma mensagem simples, que lhes devolva a confiança perdida. A política vai para o âmbito da fé. 

É nesse momento que nos encontramos novamente. Dessa vez, com ferramentas de manipulação mais eficazes do que nunca, beneficiadas pelo modo como os eleitores escancaram seus perfis nas plataformas digitais. 

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