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A reação ao populismo autoritário

Há uma resposta visível à onda autoritária, o que não indica facilidade para a democracia

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2022 | 05h00

Na coluna do domingo passado, escrevi que a eleição de Gabriel Boric para a presidência no Chile, mais do que uma vitória da esquerda, ajuda a contar outra faceta da história deste ano: uma resposta em várias partes do mundo aos avanços do autoritarismo. Isso se aplica aos países nos quais a democracia tem raízes, por baixo da erva daninha do populismo autoritário que se espalhou nos últimos anos pelo mundo livre.

Nos Estados Unidos, Donald Trump perdeu dezenas de ações na Justiça que tentavam reverter sua derrota para Joe Biden nas urnas. Seguidores do então presidente invadiram o Congresso no dia 6 de janeiro para tentar impedir a certificação da vitória de Biden. Mas o controle do Capitólio foi recuperado, a sessão, retomada, e Biden, empossado duas semanas depois. Trump e outros incendiários foram excluídos das redes sociais.

Assim como aconteceu agora em dezembro no Chile, também no Peru a eleição de Pedro Castillo, de esquerda, não veio acompanhada de maioria no Parlamento. Dos 130 deputados, apenas 37 são do partido dele, chamado Peru Livre. 

Sua eleição se explica não pelo desejo dos peruanos de uma guinada à esquerda, mas pela rejeição à corrupção dos políticos tradicionais, acusados de receber propinas da Odebrecht, e à candidatura de Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori.

A Alternativa para a Alemanha, única força antidemocrática que disputa as eleições alemãs, encolheu na votação de setembro. O partido elegeu 83 deputados – 11 a menos do que em 2017 –, com suas posições negacionistas em relação à mudança climática e à ameaça da covid-19. 

A coalizão formada em novembro é uma celebração da democracia na sua manifestação mais concreta: a negociação. É o governo mais diverso do pós-Guerra, reunindo representantes do empresariado e ambientalistas. 

O mesmo pode ser dito da coalizão formada em Israel depois de mais uma eleição sem um ganhador claro: ela abriga de ultranacionalistas judeus a um partido árabe islâmico, que participa do governo israelense pela primeira vez.

Os governos de extrema direita da Hungria e da Polônia também sofrem pressões – internas e externas. Os dois países estão sob ameaça de sanções e ações na Justiça por parte da União Europeia, por terem capturado o Judiciário e aprovado leis antidemocráticas no Parlamento. Além disso, a oposição húngara se uniu, realizou primárias e deve enfrentar o primeiro-ministro Viktor Orbán com candidato único em abril ou maio.

Nada disso quer dizer que o caminho da democracia ficou fácil. Nunca foi. Mas há uma resposta visível à onda autoritária.

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